Em 1977, uma jovem australiana decidiu cruzar o deserto rumo ao oceano com seus camelos, seu cachorro e um desejo inegociável de estar só. Quase quatro décadas depois, Tracks adapta essa história verídica ao cinema com beleza rarefeita e força emocional. Protagonizado por Mia Wasikowska, o filme não fala sobre fugir do mundo, mas sobre reencontrá-lo — desde que ao seu próprio tempo e em seus próprios termos.
Uma mulher, o deserto e o peso da liberdade
Robyn Davidson não queria provar nada a ninguém. Sua travessia pelo deserto australiano, acompanhada de quatro camelos e um cão, não foi impulsionada por fama ou rebeldia. Foi, acima de tudo, um gesto de autonomia. Tracks retrata essa jornada com uma delicadeza visual que dialoga com o silêncio da protagonista — e com sua recusa em se encaixar nas normas e expectativas sociais.
A narrativa, baseada no livro homônimo da própria Robyn, expõe as camadas emocionais da caminhada: a preparação, a solidão, os encontros fortuitos e a fricção entre liberdade e exposição, principalmente com a chegada do fotógrafo da National Geographic, Rick Smolan (Adam Driver), cuja presença financiadora também representa uma forma sutil de invasão.
Silêncio como linguagem, vastidão como espelho
A cinematografia de Mandy Walker traduz o deserto não como cenário, mas como personagem. A paleta de cores quentes, os planos abertos e a ausência de trilha sonora em diversos trechos reforçam o que há de mais subjetivo na jornada: o enfrentamento do próprio vazio. É nesse vazio que Robyn encontra, paradoxalmente, algo pleno.
O deserto funciona como um espelho emocional, onde a ausência de estímulos sociais permite o surgimento de memórias dolorosas, principalmente ligadas à infância e à perda. A morte de seu cão Diggity, em especial, é retratada com discrição e impacto — sem apelos melodramáticos, apenas com a dor crua de quem segue andando, porque parar não é uma opção.
O corpo como território e fronteira
Tracks também se inscreve entre as narrativas que ressignificam o corpo feminino em paisagens historicamente masculinas. Robyn caminha sozinha, dorme exposta, negocia com homens, carrega carga, mede distâncias. Sua vulnerabilidade não a impede; pelo contrário, é parte constitutiva de sua força. Em cada passo, ela reafirma a legitimidade de ocupar espaços sem a mediação de um homem, sem explicações ou concessões.
O breve contato com o guia indígena Sr. Eddy abre uma outra dimensão: a do respeito ao território e à espiritualidade local. Diferente de outras produções que exotizam ou instrumentalizam figuras indígenas, Tracks trata o personagem com dignidade, ainda que brevemente. Ele não surge para “salvar” Robyn, mas para indicar que o caminho também exige escuta e humildade.
Travessias que moldam identidades
Mais do que uma jornada física, Tracks é uma construção identitária. Robyn sai de Alice Springs com uma carga emocional difusa e chega ao Índico com uma clareza que não precisa ser verbalizada. O que mudou não foi o mundo ao seu redor, mas sua maneira de habitá-lo. A solidão do deserto, que muitos associariam à perda, revela-se aqui como cura.
Com um orçamento modesto e bilheteria tímida, o filme conquistou prêmios de fotografia e recebeu elogios consistentes da crítica. Mas sua principal força reside no que ele inspira: uma retomada do espaço interior. Em tempos ruidosos, onde se exige presença constante e performática, Tracks propõe outra coisa — a coragem de sumir um pouco para poder, enfim, emergir inteira.
