O Som ao Redor, dirigido por Kleber Mendonça Filho, é muito mais que uma simples narrativa sobre vizinhos e seguranças. O filme desenha um retrato preciso, inquietante e atual das dinâmicas de poder, controle e convivência nas cidades brasileiras. A obra mergulha nas rotinas de uma rua de classe média no Recife, onde a chegada de uma empresa de segurança privada altera profundamente a paisagem social e revela tensões até então camufladas pelo aparente sossego do bairro.
O controle que vigia e inquieta
O cotidiano dos moradores se transforma com a chegada de Clodoaldo (Irandhir Santos) e seus funcionários, representantes de uma empresa de segurança privada. À primeira vista, a proposta parece simples: oferecer proteção. No entanto, conforme os dias passam, fica evidente que a presença desses homens armados não apenas reforça a sensação de vigilância, como também desperta um incômodo constante, quase palpável.
Por trás das grades recém-instaladas e dos olhares desconfiados, o filme questiona os limites entre proteção e opressão. A narrativa expõe como, em muitos contextos urbanos, a busca por segurança acaba reproduzindo dinâmicas de poder que aprofundam desigualdades e fragilizam os laços comunitários.
Microviolências do dia a dia: o som que ecoa
Enquanto os seguranças ocupam a rua, os conflitos interpessoais também ganham espaço. Bia (Maeve Jinkings), uma dona de casa, trava uma silenciosa batalha contra um vizinho barulhento, em um embate que reflete as pequenas — e, muitas vezes, invisíveis — violências do cotidiano. São ruídos que incomodam, tensões que acumulam e silenciam, mas que, ao mesmo tempo, dizem muito sobre a dificuldade de conviver em coletividade.
O uso do som como recurso narrativo é, nesse contexto, brilhante. Kleber Mendonça Filho transforma ruídos cotidianos — cães latindo, televisores, cortadores de grama, passos, conversas abafadas — em elementos que constroem tensão e ampliam o desconforto. Mais do que ilustrar, o som denuncia o que não se vê.
Urbanização, memória e as rachaduras invisíveis
O Som ao Redor também provoca reflexões sobre os efeitos da urbanização e do apagamento da memória coletiva. A rua, embora moderna, carrega marcas de um passado ainda presente nas relações de poder, nas disputas territoriais e na maneira como o espaço é ocupado.
Essa perspectiva revela como o desenvolvimento urbano nem sempre significa progresso para todos. As camadas históricas — muitas vezes ignoradas — emergem nas relações entre os personagens, que transitam entre lembranças, conflitos e tensões que atravessam gerações.
Um espelho da sociedade brasileira
Com uma estética que combina realismo documental e ficção, o filme constrói uma atmosfera que flerta com o suspense psicológico. Não há vilões explícitos, nem heróis evidentes. Tudo se move em zonas cinzentas, onde a segurança pode ser tanto abrigo quanto ameaça, e onde a aparente paz convive com o medo não declarado.
O Som ao Redor não apenas retrata uma rua do Recife, mas simboliza tantas outras ruas do país, onde as relações são mediadas por desconfiança, controle e disputas silenciosas. É um retrato sensível e incisivo de como as estruturas sociais se reorganizam sob a falsa promessa de ordem.
Por que assistir?
Mais de uma década após sua estreia, o filme permanece atual e necessário. Suas reflexões dialogam com os desafios contemporâneos das cidades, como a dificuldade de construir comunidades mais integradas, justas e capazes de enfrentar as desigualdades estruturais.
Ao expor as contradições presentes na busca por segurança, o filme também provoca uma reflexão sobre a importância de fortalecer vínculos comunitários, promover justiça social e repensar modelos de convivência que priorizem o coletivo — valores essenciais em qualquer sociedade que almeje um futuro mais harmônico e resiliente.
