Lançado em 2021 e produzido pela A24, The Humans acompanha uma família reunida para o Dia de Ação de Graças em um apartamento antigo de Manhattan. Não há eventos extraordinários, nem ameaças visíveis. Ainda assim, o desconforto cresce a cada minuto. Dirigido e roteirizado por Stephen Karam, a partir de sua própria peça premiada, o filme transforma o cotidiano em horror existencial, revelando como medos financeiros, doenças, frustrações e o simples passar do tempo podem ser mais assustadores do que qualquer fantasma.
Uma noite comum, uma tensão constante
À primeira vista, tudo parece normal. Uma família se reúne para jantar, conversa sobre trabalho, relacionamentos e pequenas preocupações do dia a dia. Mas The Humans constrói sua força justamente no que não explode. O filme aposta na acumulação de silêncios, olhares desviados e frases interrompidas.
O que assusta não é o que acontece, mas o que pode acontecer. A sensação de instabilidade é permanente, como se algo estivesse prestes a desabar — emocional, físico ou financeiro. E essa expectativa nunca se resolve completamente, mantendo o espectador em estado de alerta contínuo.
Personagens comuns, medos universais
Cada personagem carrega um tipo de ansiedade muito reconhecível. Erik, o pai vivido por Richard Jenkins, é a personificação do medo da decadência: da doença, da velhice, da morte e da perda de controle. Sua inquietação constante contamina o ambiente, mesmo quando ele tenta parecer funcional.
Deirdre, a mãe, sustenta a família com uma força silenciosa, enquanto lida com o cansaço acumulado de quem sempre precisou ser o pilar. As filhas refletem um presente instável, marcado por expectativas frustradas, insegurança financeira e incertezas sobre o futuro. Não há vilões — apenas pessoas tentando aguentar.
Precariedade como estado emocional
Um dos grandes méritos de The Humans é tratar a insegurança econômica como uma forma de terror psicológico. O dinheiro — ou a falta dele — nunca está longe das conversas, mesmo quando não é citado diretamente. Ele aparece como pano de fundo constante, moldando decisões, limitando sonhos e corroendo a sensação de segurança.
Essa ansiedade financeira não é explosiva, mas contínua. É o medo de não estar preparado para o amanhã, de um imprevisto ser suficiente para derrubar tudo. O filme capta esse sentimento com precisão quase dolorosa, especialmente para quem vive em grandes centros urbanos.
O corpo como lembrança da finitude
Além do dinheiro, o corpo também falha. Doenças crônicas, dores persistentes e o envelhecimento surgem como lembretes inevitáveis da fragilidade humana. A personagem de Amy Schumer, em especial, usa o humor como defesa contra o luto e a dor física, revelando como rir pode ser uma forma de sobrevivência.
O filme não dramatiza essas questões de forma exagerada. Pelo contrário, elas surgem de maneira quase casual, como acontecem na vida real. E é justamente essa naturalidade que torna tudo mais inquietante.
O apartamento que respira ansiedade
O espaço onde a história se passa é mais do que cenário. O apartamento antigo, com seus corredores escuros, rangidos constantes e paredes finas, funciona como um organismo vivo. Ele absorve a tensão da família e devolve em forma de eco, sombra e ruído.
Stephen Karam opta por não “abrir” a peça para o cinema. Ele aprofunda o confinamento. A câmera se move de forma contida, os enquadramentos são fechados e o som ambiente assume papel central. Cada barulho parece anunciar algo que nunca chega — e isso é o que mais assusta.
Um horror sem monstros
The Humans já foi definido como “terror sem monstros”, e a descrição é precisa. O filme se aproxima do horror não pelo susto, mas pela identificação. Ele mostra que o verdadeiro medo está na repetição dos dias, na erosão lenta da classe média, na dificuldade de conversar honestamente sobre fragilidades.
Comparado a obras como Hereditary (pela ansiedade constante), Marriage Story (pela intimidade emocional) e Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (pela dinâmica familiar), o longa se destaca por sua contenção radical. Nada é resolvido. Nada é exorcizado.
Um filme que fica no corpo
Aclamado pela crítica, com destaque absoluto para a atuação de Richard Jenkins, The Humans não é um filme de grandes cenas memoráveis. Ele permanece de outra forma. Fica no corpo, na respiração curta, na sensação incômoda de reconhecimento.
Ao final, não há catarse nem alívio. Apenas a constatação de que o medo não vem de forças externas, mas da soma de pequenas angústias diárias que preferimos não nomear.
