Lançado em 2017 e relançado em versão revista em 2019, O Poder e o Impossível (The Current War) transforma um embate tecnológico do fim do século XIX em um retrato atual sobre poder, ética e controle. Dirigido por Alfonso Gomez-Rejon, o filme dramatiza a disputa entre Thomas Edison e George Westinghouse pelo padrão de eletricidade que iluminaria cidades inteiras. Mais do que uma história sobre invenções, é um alerta: toda inovação carrega escolhas — e consequências.
A guerra que decidiu o futuro
No centro do filme está a chamada Guerra das Correntes, disputa entre a corrente contínua (DC), defendida por Edison, e a corrente alternada (AC), promovida por Westinghouse com o apoio intelectual de Nikola Tesla. O que poderia soar como um debate técnico ganha contornos políticos, econômicos e morais.
O longa deixa claro que o progresso não acontece em laboratório isolado. Ele nasce em arenas de poder, onde interesses se chocam e narrativas são cuidadosamente construídas. Vencer não significa apenas ter a melhor solução, mas controlar o discurso que define o que será considerado “seguro”, “eficiente” e “aceitável”.
Thomas Edison e o medo de perder o controle
Interpretado por Benedict Cumberbatch, Edison surge como um gênio pragmático, mas profundamente obcecado por legado. Ele não luta apenas por uma tecnologia, mas por manter sua posição como símbolo máximo do progresso americano.
O filme evita caricaturas fáceis. Edison não é vilão clássico, mas a personificação de um poder que já venceu e teme ser superado. Suas escolhas levantam questões incômodas sobre até onde alguém pode ir para preservar influência — mesmo quando isso significa distorcer fatos ou explorar o medo coletivo.
Westinghouse, Tesla e a outra ideia de futuro
George Westinghouse, vivido por Michael Shannon, representa uma visão mais aberta e distributiva da tecnologia. Defensor da eficiência e do acesso ampliado à energia, ele acredita que inovação deve servir à sociedade, não apenas ao ego de seus criadores.
Já Nikola Tesla, interpretado por Nicholas Hoult, surge como o visionário isolado. Brilhante, à frente do seu tempo, mas incapaz de navegar pelas engrenagens do poder econômico. O filme é especialmente duro ao mostrar como ideias revolucionárias podem ser apropriadas, usadas e depois descartadas quando deixam de ser convenientes.
Inovação como disputa, não como consenso
O Poder e o Impossível desmonta a ideia romântica de que o avanço tecnológico é neutro. Cada escolha técnica cria vencedores e perdedores. Cada padrão adotado exclui alternativas e redefine o rumo de sociedades inteiras.
O filme questiona quem realmente decide o futuro: o inventor que cria ou o empresário que financia? A resposta, aqui, é desconfortável. Ideias só ganham escala quando servem a estruturas de poder já estabelecidas.
A eletricidade como símbolo de domínio
A eletricidade, no filme, vai muito além da luz. Ela simboliza controle. Quem domina a energia controla cidades, indústrias e o ritmo da vida moderna. Definir o padrão é definir o mundo.
Essa lógica atravessa a narrativa com clareza. A guerra é técnica, mas a vitória é política. E quem perde raramente aparece nos livros de história — desaparece junto com suas contribuições.
Estilo clássico, conflitos atuais
Alfonso Gomez-Rejon opta por uma estética elegante e contida. A fotografia é clássica, os diálogos são densos e o conflito se dá mais no campo das ideias do que da ação. Não há cenas grandiosas de espetáculo, mas decisões silenciosas que mudam tudo.
Esse tom mais cerebral dividiu opiniões no lançamento inicial, mas ganhou força com o corte do diretor em 2019. É um filme que exige atenção e cresce com o tempo, como a própria infraestrutura que retrata.
Um espelho para o presente
Embora ambientado no século XIX, O Poder e o Impossível conversa diretamente com dilemas contemporâneos. A concentração de poder, a disputa por narrativas tecnológicas e a transformação de ideias em armas econômicas seguem atuais.
O longa lembra que o mundo moderno não foi iluminado apenas por genialidade, mas por embates. E que toda inovação carrega uma pergunta moral que nunca envelhece: quem se beneficia — e quem fica no escuro?
