Lançado em 2021 e baseado no premiado musical da Broadway, Querido Evan Hansen tenta construir um retrato sensível da saúde mental na juventude, mas acaba afogado em controvérsias sobre manipulação emocional, escolhas éticas frágeis e um casting que compromete sua credibilidade. A transposição do palco para o cinema revela mais do que uma simples adaptação: expõe as fissuras de uma narrativa que, ao buscar empatia, tropeça na própria moral.
Entre a ansiedade e a mentira
Evan Hansen é um adolescente diagnosticado com transtorno de ansiedade social que, por um mal-entendido trágico, torna-se símbolo de uma história que nunca viveu. Ao escrever cartas terapêuticas para si mesmo, uma delas é interpretada erroneamente como um bilhete de despedida de Connor Murphy, colega de escola que comete suicídio. A mentira que começa em silêncio logo se amplifica, tornando-se uma espécie de consolo coletivo — porém construído sobre alicerces frágeis e éticos.
A obra propõe uma reflexão sobre saúde mental, luto e pertencimento, mas encontra resistência ao ser acusada de explorar essas questões de forma superficial e manipuladora. O uso do suicídio como catalisador de crescimento emocional para quem mente — e não para quem sofre — provocou críticas severas, principalmente pelo modo como o roteiro suaviza as consequências das ações de Evan. A mensagem de empatia, embora essencial, esbarra em escolhas narrativas que obscurecem a complexidade do tema.
Um protagonista fora do tempo
Ben Platt, que interpretou Evan no musical original, retorna ao papel aos 27 anos para viver um personagem de 17. A diferença de idade, combinada com um desempenho extremamente teatral, gerou desconforto visual e afastou parte da audiência. A escolha, vista como nepotismo — já que Platt é filho do produtor do filme —, alimentou discussões sobre autenticidade e favoritismo na indústria.
A performance de Platt, embora emotiva, soa deslocada em tela grande, reforçando um tom melodramático que pesa na fluidez da narrativa. Sua presença não consegue sustentar a proposta realista do cinema, e a tentativa de transferir a intensidade do palco para a câmera resulta em uma representação exagerada e pouco crível de um adolescente em sofrimento.
Ecos femininos que equilibram o drama
Entre os destaques do elenco, Kaitlyn Dever brilha como Zoe Murphy, irmã do falecido Connor. Sua interpretação é sensível, madura e profundamente convincente, especialmente em momentos musicais como “Requiem”, que capturam com delicadeza a ambiguidade de luto e raiva. Dever consegue traduzir com autenticidade a dor silenciosa de quem é colocado em segundo plano num drama que gira em torno da perda.
Amy Adams e Julianne Moore, como mães em lados opostos da mentira, oferecem presença sólida, mas pouco conseguem fazer frente a uma estrutura narrativa fragilizada. Amandla Stenberg, como Alana Beck, traz dinamismo à trama, embora sua personagem também sofra com limitações de roteiro. No geral, o elenco feminino representa o ponto de equilíbrio entre a manipulação emocional e a verdade silenciosa.
Musical que se perde em tela
Ao adaptar o espetáculo teatral, o diretor Stephen Chbosky opta por reduzir e reorganizar os números musicais, tentando equilibrar naturalismo e fantasia. O resultado, no entanto, é um filme que não encontra ritmo. A energia do palco se dilui na tentativa de criar uma linguagem cinematográfica que sustente o drama interior dos personagens. O dinamismo que cativa ao vivo se transforma em lentidão na tela.
Chbosky introduz elementos visuais e inserções de redes sociais para modernizar a narrativa, mas o tom ambivalente da direção não consegue definir se quer emocionar, provocar ou apenas replicar o musical. A adaptação direta revela que algumas histórias íntimas funcionam melhor quando mantidas em seus formatos originais, onde a suspensão da descrença é mais generosa.
Recepção fria e legado controverso
Com apenas 30% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes e um desempenho fraco nas bilheteiras — arrecadando menos do que custou —, Querido Evan Hansen enfrentou um colapso de expectativa. Apesar disso, a audiência comum mostrou maior aceitação (80%), revelando um hiato entre crítica e público, principalmente em obras que lidam com temas sensíveis em moldes convencionais.
A reação negativa acelerou o encerramento das produções do musical na Broadway e no West End, sinalizando que nem todo sucesso no palco resiste à transposição cinematográfica. Mais do que um fracasso comercial, o filme deixou um rastro de debates sobre representações da saúde mental, o limite da empatia como justificativa e o impacto de mensagens mal calibradas em um público jovem.
Conexões delicadas com a realidade
Embora tente promover um discurso de aceitação e diálogo, o filme também escancara os perigos da romantização do sofrimento e da exposição pública como forma de cura. As redes sociais, retratadas como espaço de acolhimento, também operam como catalisadores de culpa e julgamento. A estrutura narrativa que propõe redenção acaba, ironicamente, reforçando um ciclo de distorção emocional e responsabilização fragilizada.
Do ponto de vista social, o longa toca em feridas reais — como ansiedade, exclusão e busca por pertencimento — mas falha ao resolver esses conflitos com soluções apressadas ou moralmente ambíguas. Em vez de iluminar caminhos, deixa o espectador em um terreno nebuloso entre compaixão e desconforto, questionando se a empatia pode coexistir com a mentira.
