Baseado em fatos reais, O Contador de Histórias (2009), dirigido por Luiz Villaça, reconstrói a trajetória comovente de um menino periférico que, ao ser acolhido com respeito e escuta, reescreve seu próprio destino. Um drama potente sobre abandono, afeto e reinvenção pessoal, cuja mensagem ultrapassa os muros da instituição que um dia tentou calar sua voz.
Uma infância que o sistema tentou apagar
Belo Horizonte, anos 1970. Como milhares de meninos brasileiros marcados pela pobreza e pela ausência de políticas públicas eficazes, Roberto é entregue pela mãe à FEBEM com a esperança de um futuro melhor. No entanto, encontra ali um universo de repressão, castigos e abandono emocional — um retrato cruel de como o sistema institucional pode sufocar infâncias em vez de protegê-las.
À medida que Roberto foge repetidamente da instituição, o filme desenha um retrato sensível da juventude à margem, muitas vezes rotulada como “irrecuperável”. No olhar atento da câmera, a infância ganha contornos de resistência, ainda que marcada por solidão, violência e marginalização. Mas é também nesse cenário árido que começa a germinar a semente da transformação.
O encontro que muda tudo
É a chegada de Margherit Duvas (Maria de Medeiros), uma psicóloga francesa voluntária, que interrompe o ciclo de exclusão. Diferente dos demais adultos, ela não vê um “caso perdido”, mas um menino. Com afeto e escuta, alfabetiza Roberto, resgata sua autoestima e descobre nele um contador nato — alguém capaz de transformar dor em poesia, invisibilidade em narrativa.
O filme acerta ao retratar esse vínculo com delicadeza e profundidade, evidenciando como a educação afetiva pode ser mais potente que qualquer punição. Não é um conto de fadas: o caminho é permeado por recaídas, medos e rejeições. Mas é real — e por isso mesmo tão impactante.
Narrar é resistir: a força da memória
A estrutura do filme alterna entre o presente — com Roberto adulto — e o passado, em flashbacks marcados pela narração em voz-off. Esse recurso reforça a dimensão simbólica da memória: contar a própria história torna-se um ato político, uma reconquista de dignidade diante da exclusão sofrida.
Ao retornar à mesma instituição de onde fugiu dezenas de vezes, agora como educador, Roberto ressignifica o espaço e a própria trajetória. Ele transforma sua dor em ferramenta de acolhimento, tornando-se referência para outras crianças em situação de vulnerabilidade. Uma história que ecoa o poder da palavra, do afeto e da escuta para romper ciclos de exclusão.
Uma vida contada para muitas
Mais do que uma biografia, O Contador de Histórias é um convite à reflexão sobre o papel das instituições e da sociedade frente às infâncias invisibilizadas. A escolha de retratar Roberto em três fases da vida — interpretado com sensibilidade pelos atores Paulinho Mendes, Cleiton Santos e João Baldasserini — reforça a dimensão do tempo na construção da identidade e da esperança.
Com uma linguagem cinematográfica que equilibra realismo e lirismo, o filme escancara feridas do passado sem abandonar a ternura. E talvez aí resida sua maior força: mostrar que nenhuma criança nasce marginal, mas pode ser marginalizada — e que acreditar, de fato, muda destinos.
