Lançado em 2013, Manuscritos Não Queimam (Dast-Neveshtehaa Nemisoosand) é um filme iraniano escrito e dirigido por Mohammad Rasoulof. Realizado clandestinamente, o longa acompanha agentes encarregados de localizar cópias de um texto proibido que registra uma tentativa de assassinato contra escritores. A obra foi apresentada na mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes, onde recebeu o Prêmio FIPRESCI da crítica internacional.
Um manuscrito como ameaça ao poder
O conflito do filme nasce de um objeto aparentemente simples: um texto que preserva nomes, fatos e responsabilidades ligados a uma tentativa de eliminação de intelectuais. Para os agentes Khosrow e Morteza, encontrar e destruir as cópias do manuscrito é uma tarefa de Estado. Para os escritores ligados ao documento, mantê-lo em circulação é uma forma de preservar a memória.
A narrativa desloca a tensão do confronto físico para o controle da informação. O problema central não é somente a existência de testemunhas, mas a possibilidade de que os acontecimentos sejam registrados, reproduzidos e compartilhados. Dessa forma, o filme trata a palavra escrita como um contrapoder diante de estruturas que tentam determinar o que pode ser lembrado.
Ficção dialoga com episódios da história iraniana
Embora seja ficcional, o enredo remete aos chamados “assassinatos em cadeia” de intelectuais e dissidentes no Irã durante a década de 1990. Entre as referências está o episódio de 1996, no qual 21 escritores viajavam de ônibus para uma conferência na Armênia e sobreviveram a uma tentativa de provocar a queda do veículo em um desfiladeiro.
Em 1999, o Ministério da Inteligência iraniano reconheceu o envolvimento de agentes em parte dos assassinatos ocorridos em 1998, atribuindo a responsabilidade a integrantes que teriam agido sem autorização. Rasoulof não transforma esses fatos em reconstituição documental, mas utiliza esse ambiente histórico para discutir repressão, impunidade e a disputa pela narrativa sobre acontecimentos políticos.
Personagens revelam mecanismos da obediência
Khosrow e Morteza não são apresentados apenas como executores de violência, mas como partes de uma cadeia de ordens e justificativas. Khosrow enfrenta dificuldades financeiras relacionadas ao tratamento do filho, enquanto Morteza demonstra maior adesão ideológica à tarefa recebida. A diferença entre os dois expõe formas distintas de participação em um sistema repressivo.
Kasra e Forouzadeh ocupam o polo da resistência por meio da escrita e da tentativa de publicação. A obra evita tratá-los como figuras sem medo ou desgaste: a ameaça afeta a vida cotidiana, os vínculos pessoais e a capacidade de seguir adiante. Esse contraste reforça que a censura atua não apenas pela proibição direta, mas também pelo medo e pela autocensura.
Direção adota suspense contido e atmosfera de vigilância
Rasoulof constrói o filme com uma linguagem direta, marcada por ambientes fechados, diálogos tensos e violência sem tratamento espetacular. O suspense se desenvolve a partir da sensação de vigilância constante e da possibilidade de que qualquer encontro, telefonema ou deslocamento tenha consequências para os personagens.
As condições de produção reforçam essa abordagem. O longa foi filmado clandestinamente, e os nomes de integrantes do elenco e da equipe foram omitidos dos créditos apresentados em Cannes como medida de proteção. A relação entre forma e conteúdo torna a produção parte do próprio debate que encena: um filme sobre censura realizado sob restrições à liberdade artística.
Relevância está na defesa da memória e da expressão
Manuscritos Não Queimam discute como instituições podem usar vigilância, intimidação e violência para controlar informações. Ao enfatizar a existência de cópias, o filme sugere que uma ideia não depende apenas de seu autor para continuar circulando. Um registro pode sobreviver em documentos, relatos, arquivos e na memória de quem teve contato com ele.
A obra também chama atenção para a responsabilidade individual em estruturas de poder. Ordens, necessidades pessoais ou convicções ideológicas podem explicar escolhas, mas não eliminam seus efeitos sobre outras pessoas. Nesse sentido, o filme relaciona liberdade de expressão, acesso à informação e preservação da memória a condições necessárias para uma sociedade capaz de questionar abusos e exigir responsabilização.
