Lançado em 2021, Eternos integra o Universo Cinematográfico Marvel e acompanha seres que vivem na Terra há milhares de anos, encarregados de combater os Deviantes. Sob a direção de Chloé Zhao, o elenco reúne Gemma Chan, Richard Madden, Angelina Jolie e Salma Hayek. A necessidade de reunir o grupo coloca em discussão sua missão e transforma a proteção da humanidade em um conflito sobre autoridade, pertencimento e responsabilidade.
O roteiro divide espaço entre mitologia e personagens
A narrativa alterna acontecimentos do presente e passagens por diferentes períodos da história humana. Essa estrutura permite mostrar como a convivência com as pessoas modifica os integrantes do grupo, que desenvolvem relações distintas com o planeta. A Terra deixa de representar apenas um local de trabalho e passa a concentrar experiências que influenciam suas decisões.
Ao mesmo tempo, apresentar dez protagonistas, explicar sua origem e estabelecer uma ameaça coletiva exige uma quantidade considerável de exposição. Mesmo com 2h37 de duração, o filme distribui de maneira desigual o desenvolvimento dos personagens. A amplitude temporal ajuda a construir a dimensão da história, mas as interrupções para contextualizar o passado retardam o avanço do conflito no presente.
A direção aproxima o espetáculo da paisagem
Chloé Zhao utiliza locações e luz natural para inserir os personagens em ambientes com presença física reconhecível. Paisagens abertas e horizontes extensos estabelecem uma relação entre a escala dos protagonistas e o mundo que habitam. Essa escolha visual contribui para que a ligação com a Terra também seja construída por espaços, além de diálogos e explicações.
A proposta convive com combates e efeitos digitais característicos do cinema de super-heróis. O contraste permite alternar contemplação e ação, embora essas partes nem sempre tenham continuidade de ritmo. Os momentos dedicados à convivência pedem tempo para observar os personagens; as sequências de ameaça precisam retomar a urgência de uma narrativa que permanece em expansão.
As relações dão forma ao elenco coletivo
Sersi, interpretada por Gemma Chan, concentra a aproximação afetiva com a humanidade, enquanto Ikaris, vivido por Richard Madden, representa o compromisso com a missão recebida. O vínculo entre ambos transforma uma divergência de princípios em conflito pessoal. A oposição oferece um eixo para acompanhar o grupo, mas divide espaço com tantas outras trajetórias que parte de sua história depende de explicações retrospectivas.
Outras relações apresentam aspectos complementares dessa experiência. Thena e Gilgamesh, interpretados por Angelina Jolie e Ma Dong-seok, associam permanência ao cuidado; Phastos, vivido por Brian Tyree Henry, encontra na família uma razão concreta para reconsiderar seu afastamento dos humanos. Esses núcleos traduzem questões abstratas em vínculos cotidianos, embora recebam tempos diferentes para desenvolver suas contradições.
A autoridade é questionada por escolhas incompatíveis
O conflito ganha complexidade quando a fidelidade aos Celestiais deixa de coincidir com a defesa da vida na Terra. Os Eternos precisam avaliar a legitimidade das ordens que orientaram sua existência. A convivência com a humanidade passa a funcionar como fonte de conhecimento capaz de contestar aquilo que antes parecia uma obrigação incontestável.
Druig, interpretado por Barry Keoghan, acrescenta outro limite ao exercício do poder: sua capacidade de controlar mentes permitiria interromper conflitos, mas retiraria das pessoas a possibilidade de decidir. Phastos, por sua vez, aproxima a discussão da responsabilidade sobre os efeitos da tecnologia. O roteiro apresenta dilemas que ultrapassam o confronto físico, embora a necessidade de encaminhar a ação reduza o espaço para explorar todas as consequências dessas posições.
A diversidade amplia a discussão sobre pertencimento
A composição do grupo inclui diferenças de aparência, experiências afetivas e formas de comunicação. Makkari, interpretada pela atriz surda Lauren Ridloff, participa da ação e das relações por meio da língua de sinais; a vida familiar de Phastos integra sua motivação. Essas escolhas ampliam as possibilidades de identificação com os protagonistas sem restringir sua participação a explicações sobre identidade.
Essa pluralidade encontra um limite na distribuição do espaço narrativo: estar presente não significa receber desenvolvimento equivalente. Ainda assim, a convivência entre personagens que discordam oferece uma base para discutir cooperação sem exigir uniformidade. Eternos reúne essas questões em uma história cuja amplitude favorece a variedade de perspectivas, mas também dificulta aprofundá-las com a mesma atenção.
