Lançado em 2023, Eileen acompanha uma jovem que trabalha em uma instituição para adolescentes infratores no Massachusetts dos anos 1960. Dirigido por William Oldroyd, o filme reúne Thomasin McKenzie e Anne Hathaway em uma história sobre a aproximação entre uma funcionária e a nova psicóloga do estabelecimento. Adaptada do romance de Ottessa Moshfegh, a trama transforma o desejo de escapar da rotina em um conflito sobre confiança e autonomia.
O roteiro aproxima fantasia e experiência cotidiana
Escrito por Ottessa Moshfegh e Luke Goebel, o roteiro concentra a narrativa na perspectiva de Eileen Dunlop. Entre o trabalho e a convivência com o pai, a personagem encontra nas fantasias uma forma de expressar desejos e hostilidade que pouco aparecem em suas relações. Esse recurso estabelece uma diferença entre sua presença social discreta e a intensidade de sua vida interior.
A chegada de Rebecca St. John modifica essa organização. A atenção da psicóloga adquire importância porque contrasta com o tratamento que Eileen recebe habitualmente. O filme permite interpretar o fascínio como uma combinação de atração, admiração e expectativa de mudança, sem oferecer acesso equivalente às intenções de Rebecca. A desigualdade de informações sustenta o suspense.
As protagonistas constroem uma relação de contraste
Thomasin McKenzie trabalha Eileen por meio de contenção, hesitação e observação. A personagem frequentemente parece avaliar o espaço que pode ocupar antes de agir. Anne Hathaway apresenta Rebecca com desenvoltura social e segurança aparente, compondo a imagem de independência que atrai a colega.
O contraste organiza uma relação em que o significado dos gestos não é necessariamente compartilhado. Uma conversa ou um convite pode representar para Eileen uma promessa que Rebecca não formulou. A dinâmica entre as atrizes permite acompanhar essa diferença, embora a concentração no olhar da protagonista também mantenha parte da psicóloga subordinada à função de figura idealizada.
A ambientação associa rotina e confinamento
O inverno e os espaços fechados participam da construção do isolamento. A casa do pai e a instituição onde Eileen trabalha oferecem poucas possibilidades de convivência acolhedora. A repetição desses ambientes aproxima a rotina profissional das obrigações domésticas, estabelecendo uma sensação de continuidade entre formas diferentes de controle.
O paralelo com o confinamento dos adolescentes funciona como leitura simbólica, sem tornar equivalentes as situações. Eileen possui possibilidades de deslocamento que os internos não têm, mas encontra obstáculos familiares e emocionais para modificar sua vida. Rebecca introduz uma referência de comportamento que parece romper essa repetição, intensificando a distância entre o cotidiano da protagonista e aquilo que ela imagina alcançar.
A mudança de direção altera o ritmo do suspense
A primeira parte dedica tempo à rotina, às fantasias e à aproximação entre as mulheres. O interesse se concentra em olhares, expectativas e pequenos deslocamentos de comportamento. Quando um segredo relacionado à instituição modifica a natureza da relação, o filme passa a exigir decisões com consequências mais imediatas.
Essa mudança permite reinterpretar o vínculo construído até então, mas também cria uma descontinuidade entre observação psicológica e ação. A concentração do conflito na etapa final deixa menos espaço para desenvolver suas repercussões. O resultado depende da relação entre essas duas partes: a revelação precisa encontrar sustentação nos desejos e nas tensões apresentados anteriormente.
A autonomia permanece uma questão em aberto
A relação com Jim, pai de Eileen, interpretado por Shea Whigham, ajuda a compreender o peso que a aprovação de Rebecca adquire. A desvalorização dentro de casa contrasta com a possibilidade de ser reconhecida no trabalho. Esse contexto esclarece a importância da aproximação sem eliminar a responsabilidade da protagonista por suas escolhas.
O filme também permite discutir os limites impostos ao desejo e à autonomia feminina naquele ambiente. Sua abordagem, porém, evita organizar a transformação de Eileen como um percurso simples de superação. Agir e deixar de obedecer não garantem, por si só, liberdade ou discernimento. A tensão central permanece na diferença entre construir uma vida própria e atribuir a outra pessoa o poder de indicar uma saída.
