Tupac Shakur foi mais que um artista: foi símbolo, movimento, conflito e poesia em estado bruto. All Eyez on Me, cinebiografia dirigida por Benny Boom, tenta reconstruir a trajetória de um dos nomes mais influentes da música negra norte-americana, mas tropeça ao transformar uma figura complexa em um mosaico de eventos apressados. Entre acertos estéticos e omissões narrativas, o longa levanta questionamentos sobre a representação de legados forjados na contradição.
O peso de ser lenda
Tupac não apenas rimava sobre desigualdade, racismo e resistência — ele os vivia na carne e nas escolhas. O filme acompanha essa jornada desde sua infância, marcada pela militância dos Panteras Negras e pela influência direta da mãe, Afeni Shakur, até sua explosiva ascensão como astro do rap. Mas, ao condensar tantos eventos em pouco mais de duas horas, All Eyez on Me se perde entre o desejo de homenagear e a necessidade de aprofundar.
A narrativa opta por um recorte cronológico, quase didático, que funciona mais como compilado de marcos biográficos do que como uma exploração subjetiva. O resultado é uma obra que informa, mas não comove; que mostra Tupac como lenda, mas pouco investiga o homem por trás do símbolo.
Entre palco, prisão e paranoia
A trajetória de Tupac foi marcada por sucessos estrondosos e quedas públicas devastadoras. O filme não ignora sua prisão por agressão sexual, as rivalidades com Notorious B.I.G. e a tensa relação com a gravadora Death Row. No entanto, essas passagens são apresentadas com um tom quase neutro, suavizando as implicações éticas e políticas que o rapper enfrentava — e frequentemente denunciava.
Essa abordagem superficial esvazia o impacto das escolhas que Tupac fazia como artista e cidadão. Em vez de mergulhar nas tensões internas que o dilaceravam, a obra opta por seguir o caminho mais seguro: a celebração estética de um ícone, sem encarar suas ambiguidades de frente.
Ícone congelado, humanidade diluída
Demetrius Shipp Jr. impressiona fisicamente pela semelhança com Tupac, mas sua atuação não alcança a profundidade emocional necessária. Falta-lhe o olhar inquieto, o gesto imprevisível, a raiva contida e o afeto abrupto que marcavam o verdadeiro Shakur. A performance é respeitosa, mas contida — como se temesse trair o mito.
As participações femininas, como Kat Graham no papel de Jada Pinkett e Danai Gurira como Afeni Shakur, oferecem breves respiros de sensibilidade. Ainda assim, ambas são limitadas por uma estrutura narrativa que privilegia os homens, as armas e os conflitos externos, em detrimento dos vínculos íntimos e das dúvidas existenciais que Tupac carregava.
Estética nostálgica, narrativa dispersa
Visualmente, o filme aposta em um retrato vibrante dos anos 90: figurinos, trilha sonora e ambientação reconstruídos com competência. A nostalgia é um trunfo e ajuda a conectar fãs à atmosfera da época. No entanto, a montagem irregular e a falta de coesão narrativa tornam o fluxo dos acontecimentos confuso e cansativo.
A trilha sonora, embora pontuada por clássicos, parece subutilizada como ferramenta narrativa. Faltam momentos em que as letras de Tupac — carregadas de dor, crítica e esperança — dialoguem com a trama de forma mais orgânica. O que se vê, muitas vezes, é o artista performando, mas não sendo escutado em sua integralidade.
Representar também é responsabilizar
Biografar Tupac exige mais do que recriar seus passos: exige sensibilidade para retratar suas contradições. O homem que escrevia poemas sensíveis e, ao mesmo tempo, se envolvia em brigas públicas; que defendia a libertação negra e assinava contratos com corporações predatórias; que pedia paz, mas andava armado. Nada disso é fácil de colocar em tela — mas também não deveria ser ignorado.
A crítica mais grave ao filme parte de quem conheceu Tupac de verdade. Jada Pinkett-Smith contestou publicamente cenas que, segundo ela, jamais aconteceram — incluindo a leitura de um poema e diálogos íntimos que nunca existiram. Tais liberdades criativas, sem aviso claro, colocam em risco a fidelidade emocional da obra, transformando lembrança em ficção duvidosa.
A voz de um tempo ainda ecoa
Lançado em um momento de crescente valorização de narrativas negras no cinema, All Eyez on Me tinha potencial para ser tão marcante quanto o próprio Tupac. Mas, ao preferir o mito à complexidade, o filme se distancia da verdade mais impactante: a de que Tupac era múltiplo, contraditório, e por isso mesmo tão humano quanto brilhante.
Ainda assim, sua mensagem sobre desigualdade, brutalidade policial, resistência e amor comunitário segue ressoando — especialmente em tempos de retrocessos sociais e violência institucional. Sua figura, mesmo congelada pelo filme, permanece viva na memória coletiva que ele ajudou a construir com rima, sangue e coragem.
