Lançado em 2025, Wicked: Pelo Bem encerra a adaptação cinematográfica do musical de Stephen Schwartz e Winnie Holzman, sob direção de Jon M. Chu. O longa acompanha Elphaba, interpretada por Cynthia Erivo, e Glinda, vivida por Ariana Grande, após a separação provocada pelos acontecimentos do primeiro filme. Enquanto Elphaba passa a ser perseguida e apresentada como a “Bruxa Má do Oeste”, Glinda ocupa uma posição de prestígio junto ao poder de Oz. A trama utiliza esse contraste para discutir como narrativas oficiais, reputação e estruturas de poder podem influenciar a percepção coletiva.
A narrativa transforma a divisão entre bem e mal
O principal eixo do segundo filme está na diferença entre identidade e reputação. Elphaba conhece a verdadeira natureza do governo do Mágico e continua defendendo os Animais, que perderam espaço, voz e direitos em Oz. Por enfrentar essa estrutura, passa a ser apresentada publicamente como uma ameaça. A personagem, portanto, não precisa necessariamente cometer os atos atribuídos a ela: basta que o sistema consiga convencer a população de que ela é perigosa.
Glinda ocupa a posição oposta. Celebrada como “Glinda, a Boa”, ela possui status, influência e proximidade com o poder, mas precisa confrontar a distância entre sua imagem pública e suas escolhas. O roteiro transforma essa contradição em parte central de seu desenvolvimento: ser considerada boa não significa necessariamente agir de maneira ética. A trajetória da personagem passa, então, da preservação da própria imagem para a tentativa de transformar influência em responsabilidade.
Elphaba e Glinda sustentam o conflito dramático
A relação entre as duas protagonistas continua sendo o centro emocional da história. Elas começam em posições diferentes, tornam-se amigas, seguem caminhos opostos e precisam lidar com as consequências dessas escolhas. O filme apresenta essa amizade não apenas como uma relação de proximidade, mas como uma experiência capaz de modificar permanentemente a identidade de ambas.
A separação também permite que o roteiro trabalhe duas formas distintas de transformação. Elphaba precisa lidar com o isolamento provocado pela resistência ao sistema, enquanto Glinda precisa reconhecer sua participação em uma estrutura que beneficia sua posição. A diferença entre as duas não desaparece, mas passa a ser acompanhada por uma compreensão mais ampla das consequências de suas decisões. Nesse sentido, o título original, For Good, funciona simultaneamente como referência à permanência dessa transformação e à ideia de fazer o bem.
Poder, propaganda e controle da percepção
O Mágico e Madame Morrible representam mecanismos diferentes de sustentação do poder. O Mágico atua principalmente como símbolo de autoridade, enquanto Morrible participa da construção e operacionalização da narrativa que transforma Elphaba em inimiga. O filme apresenta, assim, uma estrutura em que propaganda, comunicação, repetição e instituições contribuem para estabelecer determinada versão dos acontecimentos.
Essa abordagem também explica por que a verdade e o alcance público aparecem como recursos diferentes. Elphaba possui informações sobre o funcionamento do governo, mas enfrenta uma estrutura com maior capacidade de distribuir sua própria interpretação dos fatos. A perseguição aos Animais reforça essa dimensão: antes da exclusão completa, ocorre a retirada gradual de voz, espaço, liberdade e legitimidade. A narrativa utiliza essa trajetória para mostrar como a perda de direitos pode ocorrer progressivamente quando uma sociedade aceita determinadas formas de silenciamento.
Símbolos e escolhas visuais ampliam os temas
A direção de Jon M. Chu mantém a linguagem visual grandiosa associada ao primeiro capítulo, com cenários, figurinos, cores, coreografias, fantasia e música. Ao mesmo tempo, o segundo filme assume uma atmosfera mais sombria, aproximando o espetáculo de temas como perseguição, autoritarismo, propaganda, culpa e perda. Essa mudança acompanha a passagem das protagonistas de uma fase de descoberta para outra marcada pelas consequências de suas decisões.
Alguns símbolos concentram essas ideias. A cor verde de Elphaba transforma uma característica que ela não escolheu em marca de diferença e, posteriormente, em elemento utilizado para associá-la ao perigo. A bolha de Glinda representa proteção, visibilidade e privilégio, mas também sua distância em relação à realidade vivida por outras pessoas. O Grimmerie, por sua vez, associa conhecimento e poder à capacidade de compreender aquilo que está além da aparência. As duas novas músicas, “No Place Like Home” e “The Girl in the Bubble”, aprofundam respectivamente a relação de Elphaba com Oz e o conflito de Glinda com a própria imagem.
O desfecho redefine o legado de Oz
O encerramento modifica a posição de vários personagens diante da história que o público conhece de O Mágico de Oz. Elphaba sobrevive à sua falsa morte, reencontra Fiyero, já transformado em Espantalho, e deixa Oz com ele. Para sobreviver, ela precisa permitir que a identidade pública da “Bruxa Má” desapareça, enquanto sua existência permanece desconhecida pela população.
Glinda, por outro lado, permanece em Oz e passa a enfrentar diretamente as estruturas das quais anteriormente fazia parte. Ela confronta o Mágico, responsabiliza Madame Morrible e inicia mudanças que permitem o retorno dos Animais perseguidos. O desfecho desloca a ideia de bondade de um título para uma prática, enquanto a amizade entre as duas protagonistas permanece como consequência duradoura da narrativa. Dessa forma, Wicked: Pelo Bem encerra a história retomando sua principal questão: quando reputação e caráter entram em conflito, são as escolhas — especialmente aquelas que envolvem algum custo pessoal — que definem o significado de fazer o bem.
