Dirigido por Adam McKay, Vice (2018) reconstrói a jornada de Dick Cheney, do interior de Wyoming ao comando informal do país como vice-presidente de George W. Bush. Com humor ácido, reconstituições ousadas e atuações marcantes, o filme revela como a ambição escondida em gabinetes pode impactar milhões — e levanta questões sobre ética, poder e memória política.
O poder que se esconde nos bastidores
Desde os primeiros minutos, Vice estabelece Cheney como uma figura distinta: um homem que raramente se expõe, mas que se torna indispensável nos corredores de Washington. A narrativa salta entre décadas para mostrar a trajetória de um jovem problemático nos anos 60, que encontra em Lynne Cheney não apenas uma parceira amorosa, mas uma força motriz que o impulsiona a buscar o poder.
Com maestria, Adam McKay intercala imagens de arquivo, legendas irônicas e diálogos fictícios para destacar como Cheney se tornou o braço direito de nomes como Donald Rumsfeld e Gerald Ford. Ao chegar ao Congresso e, depois, à Halliburton, Cheney constrói uma rede de influência que ultrapassa eleições, partidos e cargos oficiais.
Satíra como arma política
O filme não se limita a reconstituir eventos históricos: usa a sátira como lente para explorar a complexidade do poder moderno. Entre piadas ácidas e quebras da quarta parede, McKay conduz o público a refletir sobre temas sensíveis, como a autorização para tortura, o conflito de interesses na indústria do petróleo e a manipulação de informações sobre o Iraque.
Essa escolha estética torna Vice mais do que um biopic tradicional. Ao lado da reconstrução histórica, o humor serve de crítica feroz à forma como democracias podem ser capturadas por interesses invisíveis, sem que a maior parte dos cidadãos perceba a extensão dos danos.
Performances que sustentam o choque
Christian Bale, transformado física e emocionalmente, domina a tela com um Cheney frio, calculista e quase impenetrável. Sua atuação lhe rendeu o Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar, confirmando a potência de um personagem que, em mãos menos comprometidas, poderia cair em caricatura rasa.
Amy Adams, como Lynne Cheney, oferece uma presença magnética, revelando como o poder conjugal foi peça-chave na ascensão de Cheney. Já Sam Rockwell vive um George W. Bush cômico e errático, personificando a crítica do filme à superficialidade presidencial que abriu espaço para a influência do vice.
Verdades, exageros e a polêmica da reconstrução
Embora baseado em fatos, Vice admite em sua estrutura a licença poética. Há diálogos e encontros que jamais ocorreram, como a suposta conversa de Cheney com Antonin Scalia sobre teorias legais extremas. Essa dramatização provocou críticas de historiadores e analistas políticos, que questionaram a fidelidade da narrativa e a possível distorção do passado recente.
Ao mesmo tempo, McKay reconheceu em entrevistas que o filme peca ao subestimar o papel de democratas no apoio à guerra do Iraque — evidenciando como até mesmo uma obra que se propõe crítica pode carregar vieses ou omissões que moldam a memória coletiva.
Relevância e alerta para o presente
Ambientado em uma América que, pós-Trump, revisita seus próprios fantasmas políticos, Vice convida a olhar para a era Bush-Cheney como embrião de muitos problemas que ainda assombram a democracia americana: polarização, desinformação, influência corporativa e guerras sem fim.
Nesse sentido, o filme funciona como aviso: o poder real, muitas vezes, não aparece nos palanques ou nos noticiários — mas nos gabinetes, nas redações de discursos e nas estratégias silenciosas de quem domina a máquina pública.
