Unabomber, filme dirigido por Janus Metz e lançado pela Netflix em 25 de setembro de 2026, dramatiza a trajetória de Ted Kaczynski a partir de dois períodos de sua vida. Com Jacob Tremblay no papel do jovem Ted, a produção acompanha sua passagem por Harvard e intercala esse passado com a mobilização do FBI para identificá-lo. Entre 1978 e 1995, a campanha de ataques atribuída a Kaczynski matou três pessoas e deixou 23 feridas.
Duas épocas ajudam a construir a trajetória de Kaczynski
O roteiro de Sam Chalsen e Nelson Greaves evita organizar a história apenas como uma sequência cronológica. A narrativa alterna entre a juventude de Kaczynski e os acontecimentos posteriores relacionados à sua identificação, colocando diferentes momentos de sua trajetória em diálogo.
Essa estrutura desloca parte da tensão do tradicional mistério sobre a identidade do criminoso. Como o espectador sabe quem Ted se tornará, o interesse está no processo que separa o estudante intelectualmente destacado do homem que posteriormente recorreria à violência para defender suas convicções.
A escolha também permite observar mudanças sem procurar uma causa única. Formação acadêmica, relações pessoais, isolamento e ressentimento compõem um percurso mais amplo, no qual acontecimentos separados ganham novos significados quando vistos em conjunto.
Harvard coloca ciência e ética no mesmo conflito
Russell Crowe interpreta Henry Murray, professor ligado aos controversos experimentos psicológicos dos quais Kaczynski participou durante sua passagem por Harvard. Annabelle Wallis aparece como Christiana Morgan, apresentada pela produção como parceira acadêmica de Murray e codiretora da clínica psicológica da universidade.
A presença dessa experiência na dramatização permite abordar a relação entre ciência, autoridade e ética. Ao colocar um estudante muito jovem diante de figuras acadêmicas estabelecidas, o filme também trabalha diferenças de poder existentes em ambientes nos quais participantes dependem de instituições e especialistas.
O episódio funciona como parte da formação do personagem, sem precisar servir como explicação definitiva para tudo o que ocorreria posteriormente. A trajetória apresentada pelo filme é construída pela combinação de diferentes experiências, e não por uma relação automática entre um único acontecimento e os crimes cometidos décadas depois.
Inteligência não impede processos de radicalização
Kaczynski aparece inicialmente como um jovem de grande capacidade acadêmica. A escolha de Jacob Tremblay para representar essa fase reforça o contraste entre o estudante que chega cedo a Harvard e a figura que posteriormente ficaria conhecida pelos ataques.
Esse contraste permite questionar uma associação recorrente entre capacidade intelectual e capacidade de julgamento. Argumentos complexos podem servir tanto para analisar uma realidade quanto para racionalizar comportamentos, principalmente quando a própria visão de mundo deixa de ser submetida ao contraditório.
O isolamento ganha importância nesse processo. À medida que perspectivas diferentes perdem espaço, determinadas interpretações podem se tornar mais rígidas. Ressentimento e convicção passam, então, a influenciar não apenas aquilo em que alguém acredita, mas também a maneira como enxerga outras pessoas e a própria sociedade.
Joanne Miller amplia o ponto de vista da história
Shailene Woodley interpreta Joanne Miller, agente do FBI encarregada, dentro da dramatização, de procurar Kaczynski. Sua presença estabelece um contraponto à juventude mostrada pelo filme: enquanto uma linha narrativa acompanha a formação de Ted, a outra lida com uma campanha de ataques que precisa ser interrompida.
A investigação também permite trabalhar informações fragmentadas. Cartas, padrões, datas e escolhas de linguagem precisam ser relacionados sem que uma hipótese seja confundida imediatamente com prova. O desafio está em transformar diferentes elementos em uma identificação verificável.
Ao dividir a história entre essas perspectivas, o longa evita permanecer exclusivamente ao lado de Kaczynski. O foco se expande para quem tenta encontrá-lo e para os efeitos concretos produzidos pelos ataques, equilibrando o interesse pela formação do criminoso com as consequências de suas ações.
Crítica à tecnologia encontra seu limite na violência
A trajetória de Kaczynski ficou associada a críticas à industrialização e ao desenvolvimento tecnológico, criando um desafio particular para uma dramatização de sua história. Questionamentos sobre tecnologia, poder e transformações sociais podem existir dentro do debate público sem que discordâncias transformem indivíduos em alvos.
É nessa passagem que o filme encontra um de seus conflitos centrais. Uma crítica inicialmente formulada no campo das ideias passa a integrar uma visão cada vez mais rígida da sociedade, enquanto a violência deixa de ser consequência distante e se torna instrumento utilizado para produzir medo e chamar atenção.
Unabomber aproxima, assim, inteligência, isolamento, ressentimento e radicalização sem tratá-los como respostas simples. Mais do que procurar uma explicação definitiva para Kaczynski, o filme observa como convicções podem se fechar progressivamente ao contraditório até que pessoas reais sejam reduzidas a símbolos de tudo aquilo que alguém passou a combater.
