Todos os Demônios Estão Aqui (All the Devils Are Here), filme de 2025 dirigido por Barnaby Roper e escrito por John Patrick Dover, acompanha quatro criminosos enviados para um esconderijo isolado após um assalto. Enquanto Ronnie, Grady, Numbers e Royce aguardam novas instruções, a falta de respostas altera a dinâmica do grupo e transforma um período aparentemente simples de espera em uma disputa marcada por dúvidas, interesses individuais e informações incompletas.
O confinamento transforma segurança em ameaça
O esconderijo deveria cumprir uma função objetiva: manter os quatro homens afastados de qualquer risco até que possam seguir adiante. O roteiro, porém, utiliza justamente esse espaço protegido para construir o suspense. Sem possibilidade de sair e sem saber quando receberão novas ordens, os personagens passam a direcionar a atenção uns para os outros.
A escolha por um ambiente restrito permite que Todos os Demônios Estão Aqui trabalhe mais com tensão interna do que com perseguições constantes. Pequenos comportamentos ganham importância, conversas passam a carregar duplo sentido e o tempo aumenta o desconforto. A ameaça não precisa estar do lado de fora quando os próprios integrantes do grupo começam a questionar as intenções daqueles que dividem o espaço.
Nesse sentido, a casa funciona quase como uma prisão criada pelos próprios personagens. Quanto mais seguro deveria ser o local, menor se torna a possibilidade de evitar os conflitos que estavam escondidos pela urgência do crime.
Ronnie tenta manter uma ordem cada vez mais instável
Eddie Marsan interpreta Ronnie, o integrante mais experiente do grupo e aquele que assume naturalmente uma posição de liderança. Seu conhecimento do ambiente criminoso faz com que tente preservar disciplina e evitar decisões tomadas por impulso enquanto todos aguardam orientações.
O problema é que experiência não garante autoridade absoluta. Ronnie precisa administrar pessoas que possuem temperamentos, interesses e níveis de experiência diferentes, sem contar com uma estrutura capaz de obrigá-las a seguir suas decisões. Sua liderança depende de um acordo que começa a enfraquecer conforme aumenta a incerteza.
Grady, vivido por Sam Claflin, intensifica essa dificuldade. Sua postura mais agressiva e provocadora introduz instabilidade em um ambiente no qual qualquer confronto pode alterar o equilíbrio. O contraste entre os dois mostra a diferença entre conseguir impor uma reação imediata e realmente manter um grupo funcionando sob pressão.
Cada integrante ocupa uma posição diferente dentro do grupo
Burn Gorman interpreta Numbers, responsável por uma parte particularmente sensível da operação: o dinheiro. Sua função lhe concede importância, mas também o coloca em uma posição delicada. Em um grupo reunido principalmente pelo benefício do crime, controlar aquilo que todos desejam pode produzir influência e suspeita ao mesmo tempo.
Royce, vivido por Tienne Simon, representa outra perspectiva. Mais jovem e menos experiente, ele reage ao confinamento sem o mesmo repertório dos demais. O nervosismo, porém, pode ser facilmente interpretado de maneiras diferentes por pessoas que já procuram sinais de problemas ao redor.
A chegada de C, personagem de Suki Waterhouse, modifica novamente essas relações. Ela traz informações de fora justamente quando o grupo está tentando entender por que as instruções esperadas não chegaram. Em vez de eliminar as dúvidas, sua presença acrescenta uma nova variável a um cenário no qual cada informação precisa ser avaliada antes de ser aceita.
A falta de respostas faz a imaginação preencher as lacunas
A espera ocupa papel importante na construção do suspense. Os personagens sabem que deveriam receber novas ordens, mas não possuem controle sobre quando isso acontecerá ou sobre aquilo que ocorre fora do esconderijo. Essa ausência de informação abre espaço para diferentes hipóteses.
É nesse processo que comportamentos comuns podem adquirir significados maiores. Um silêncio pode parecer ocultação, nervosismo pode ser confundido com culpa e uma ausência momentânea pode alimentar novas teorias. Quanto menos os personagens sabem, mais precisam interpretar.
O filme explora, assim, um mecanismo recorrente do comportamento humano: diante da incerteza, existe a tendência de preencher aquilo que desconhecemos com explicações que façam sentido a partir dos nossos próprios receios. O perigo aparece quando uma hipótese deixa de ser tratada como possibilidade e passa a orientar decisões antes que existam elementos suficientes para confirmá-la.
O assalto revela uma parceria construída sobre bases frágeis
Os quatro criminosos conseguiram participar de uma mesma operação, mas isso não significa que formem uma equipe no sentido mais amplo. Eles foram aproximados por um objetivo específico e não por amizade, história compartilhada ou valores comuns. Enquanto o plano funciona, essa diferença pode permanecer escondida.
O confinamento começa a testar justamente essa estrutura. Quando surgem dúvidas sobre o futuro e cada integrante precisa considerar o próprio risco, interesses que antes pareciam alinhados deixam de necessariamente apontar para a mesma direção. A recompensa que justificou a parceria também pode incentivar decisões individuais.
Todos os Demônios Estão Aqui utiliza essa fragilidade para construir um thriller no qual o perigo não depende apenas da chegada de um adversário externo. Medo, ressentimento, impulsividade e interesses particulares já estão presentes dentro do esconderijo. O suspense nasce da possibilidade de que, quando um grupo não possui confiança suficiente para atravessar uma crise, o isolamento seja capaz de transformar seus próprios integrantes na maior ameaça à sobrevivência coletiva.
