No drama The Third Murder (2017), de Hirokazu Kore-eda, um caso de assassinato se transforma em um labirinto moral e filosófico. O que parecia uma confissão simples logo se revela um emaranhado de versões contraditórias, obrigando o advogado a questionar não apenas a inocência do acusado, mas o próprio significado de justiça em um sistema que molda a verdade de acordo com conveniências.
Verdade ou conveniência?
A narrativa coloca em choque duas forças: a necessidade de estabelecer fatos concretos para julgamento e a fragilidade da verdade diante de versões mutáveis. O acusado, Misumi, muda sua história a cada interrogatório, deixando a defesa, a promotoria e até o público em um estado de constante incerteza.
Essa ambiguidade expõe como a verdade, em vez de ser absoluta, pode ser manipulada para servir a interesses institucionais. O tribunal se torna menos um espaço de revelação dos fatos e mais um palco de disputas narrativas, onde a conveniência frequentemente se sobrepõe à justiça.
Justiça e moral em confronto
Shigemori, o advogado de defesa, inicia sua trajetória cético e pragmático, mas conforme mergulha nas contradições do caso, passa a questionar o próprio papel da lei. O que significa aplicar a justiça quando a verdade é inalcançável? E até que ponto o sistema realmente busca respostas, ou apenas soluções rápidas?
Kore-eda conduz essa reflexão com delicadeza, mostrando que os dilemas morais vão além do veredito. A obra sugere que a justiça pode falhar não apenas por corrupção ou omissão, mas pela incapacidade de lidar com as zonas cinzentas da condição humana.
O peso do crime sobre os laços humanos
Para além do tribunal, o filme também ilumina as marcas invisíveis que um crime deixa em famílias e comunidades. A dor da filha da vítima, Sakie, e a relação dela com o acusado abrem brechas de dúvida e empatia. O drama não se limita a quem cometeu o assassinato, mas se estende a todos que orbitam ao redor dele.
Esse olhar humano amplia a reflexão: o impacto da violência não termina no ato, mas reverbera em traumas, silêncios e ressentimentos que desafiam qualquer sentença judicial.
Um thriller filosófico de Kore-eda
Com fotografia marcada por sombras e enquadramentos que evocam dúvida, Kore-eda constrói um filme contemplativo, que se afasta do suspense tradicional para se aproximar da filosofia moral. O espectador é convocado não a descobrir “quem fez”, mas a refletir sobre “o que é verdade” e “o que é justiça”.
Premiado pela crítica e reconhecido em festivais, The Third Murder se consolida como uma obra que incomoda e instiga. Ao final, a pergunta que fica é menos sobre o crime e mais sobre os limites de um sistema que se pretende justo, mas que tantas vezes se mostra cego diante da complexidade humana.
