A série derivada de The Batman (2022) acompanha Oswald Cobblepot — o temido e, ao mesmo tempo, patético Pinguim — enquanto ele tenta preencher o vácuo deixado pela queda de Carmine Falcone. Sob direção de Craig Zobel (Mare of Easttown) e produção de Matt Reeves, o universo DC Elseworlds mergulha em um drama psicológico sobre poder, deformidade e ascensão moralmente corrompida. Gotham nunca esteve tão real — nem tão humana.
O vácuo do poder
Logo após o colapso mostrado em The Batman, Gotham está à deriva — uma cidade inundada, literal e simbolicamente. É nesse caos que Oz, o eterno capanga, vê sua oportunidade.
Mas “subir” em Gotham significa sujar as mãos — e os sonhos. O personagem de Colin Farrell é um estudo de ambição e trauma: alguém que sempre foi ridicularizado, agora decidido a provar que também pode mandar, mesmo que para isso precise destruir o que resta de ordem.
A narrativa retrata o poder como uma epidemia: começa como defesa, termina como doença. The Penguin não é sobre vencer, e sim sobre o que se perde quando o respeito se torna vício. O trono de Gotham é feito de ossos — e Oz aprende isso tarde demais.
Corrupção, identidade e deformidade
O retrato psicológico do protagonista é central. A deformidade física de Oswald não é apenas estética — é uma cicatriz social.
Rejeitado, subestimado e moldado pelo desprezo, ele transforma o rancor em combustível para a dominação. O resultado é um personagem complexo, entre o grotesco e o trágico, que reflete a dualidade humana: o desejo de ser reconhecido e o medo de desaparecer.
O subtexto moral da série fala sobre nós — sobre o quanto estamos dispostos a comprometer princípios em nome de relevância, status ou controle.
Em Gotham, o mal não veste capa. Ele usa terno, fuma charuto e promete estabilidade.
Gotham como organismo doente
Mais do que cenário, Gotham é um personagem.
Lauren LeFranc constrói a cidade como um corpo em colapso — onde cada rua pulsa corrupção, e cada beco revela o fracasso das instituições. A polícia é impotente, a política é cínica, e o crime é o único sistema que ainda funciona.
Nesse ambiente, Oz não é o vilão: é o produto final de uma cidade que cria seus próprios monstros para manter o equilíbrio.
A fotografia assinada por Greig Fraser traduz essa podridão visualmente: luzes esverdeadas, sombras densas e chuva constante. O resultado é um noir industrial, entre o expressionismo e o realismo brutal — uma Gotham que respira decadência.
Sucessão, legado e a ilusão do poder
Com a morte de Carmine Falcone, a série encena uma disputa digna de Shakespeare entre os herdeiros e oportunistas do submundo.
Sofia Falcone, interpretada por Cristin Milioti, representa o poder “legítimo” que tenta resistir ao novo tirano. A tensão entre os dois é o coração político da narrativa: tradição versus ambição, herança versus conquista.
Oz não quer apenas o trono — ele quer ser lembrado.
E em Gotham, a memória custa mais caro do que a vida.
Estilo e tom: o crime como tragédia moderna
Sob direção de Craig Zobel, The Penguin adota o tom psicológico de Mare of Easttown e o transforma em um épico urbano. A trilha de Michael Giacchino mistura jazz decadente e ruídos metálicos, criando um ambiente quase sufocante, onde o luxo e a lama coexistem.
É o tipo de série que substitui o heroísmo pela ambiguidade — onde cada decisão é um pacto e cada vitória, uma perda.
Com influência clara de Scarface e The Sopranos, o roteiro costura o crime à melancolia, mostrando que o poder absoluto não liberta — aprisiona. Oz é o reflexo distorcido da nossa própria sociedade: deformada, mas faminta por controle.
