Baseado na graphic novel de Simon Stålenhag, The Electric State (2025) aposta em uma aventura sci-fi repleta de ação e melancolia. No centro da trama, Michelle (Millie Bobby Brown) atravessa um mundo devastado por uma guerra entre homens e robôs, recusando a integração tecnológica que domina a sociedade. A jornada para reencontrar o irmão perdido é, na verdade, uma busca pelo que resta de humanidade em um planeta onde corporações controlam memórias, corpos e afetos.
Um futuro que parece passado
Ambientado em um universo alternativo dos anos 1990, o filme constrói uma distopia com cheiro de nostalgia. Entre fitas VHS, computadores analógicos e robôs de alta precisão, a estética retro-futurista lembra que o progresso nem sempre significa liberdade. A direção de Anthony e Joe Russo aposta em um visual que mistura tecnologia sucateada e ruínas industriais, reforçando a ideia de que o futuro pode ser apenas uma versão mais perigosa do presente.
Essa escolha visual não é mero capricho: ao remeter a uma década em que a internet ainda engatinhava, The Electric State sugere que a promessa de conexão total sempre trouxe, de forma latente, o risco do controle absoluto.
Tecnologia, identidade e resistência
O conflito de Michelle vai além da busca por um irmão. Ao recusar a integração à Neurocaster — tecnologia que conecta mentes humanas a uma rede de dados — ela questiona o preço da autonomia em um mundo que vende segurança como sinônimo de submissão. O robô que a acompanha, portador da consciência de seu irmão, funciona como metáfora do que se perde quando a memória é transferida para a máquina.
A presença de corporações como a fictícia Sentre reforça o tom político da narrativa. Em tempos em que big techs acumulam dados e poder, a ficção soa como alerta: quem controla a tecnologia, controla também a narrativa do que é ser humano.
Entre a grandiosidade e a falha
Apesar do orçamento estimado em US$ 320 milhões e de um elenco estrelado — que inclui Chris Pratt, Ke Huy Quan e participações de Woody Harrelson e Giancarlo Esposito — o filme dividiu a crítica. Muitos apontaram fragilidades no roteiro e ritmo irregular, que nem sempre sustenta a densidade dos temas propostos. Ainda assim, a produção impressiona pela escala visual e pela coragem de discutir questões éticas em meio a sequências de ação.
Essa dualidade faz de The Electric State uma obra que, mesmo com tropeços, instiga debates necessários sobre inovação, desigualdade e o perigo de regimes corporativos que operam como novos Estados.
Memória como ato de resistência
No fundo, a mensagem que ecoa é simples e poderosa: a tecnologia pode ser ferramenta de progresso, mas também de opressão. Em um mundo que avança rumo à inteligência artificial e à hiperconexão, a jornada de Michelle funciona como lembrete de que preservar a memória e a autonomia é, mais do que nunca, um ato político.
