Lançado em 2023, Tetris surpreende ao transformar a história de um videogame aparentemente simples em um thriller empresarial com ritmo de espionagem. Ambientado no fim da Guerra Fria, o filme revela a disputa global pelos direitos do jogo criado na União Soviética, expondo um conflito onde criatividade, mercado e política nunca jogaram no mesmo time.
Um jogo simples, um mundo complicado
À primeira vista, Tetris parece um exercício de nostalgia. Mas o filme rapidamente deixa claro que o centro da história não são os blocos que caem na tela — e sim os interesses que se encaixam fora dela. Moscou, Tóquio, Estados Unidos e Europa se tornam peças de um tabuleiro onde contratos valem mais do que pixels.
O roteiro parte de um paradoxo fascinante: como um jogo tão acessível nasceu dentro de um sistema que não reconhecia a autoria individual. A simplicidade do Tetris contrasta com a complexidade jurídica, política e econômica que cercou sua expansão global.
Criar não é o mesmo que possuir
Taron Egerton interpreta Henk Rogers como um empreendedor movido por intuição e persistência. Ele acredita no potencial cultural do jogo e insiste em levá-lo ao público certo, mesmo quando isso significa atravessar fronteiras ideológicas e burocráticas.
Do outro lado está Alexey Pajitnov, vivido com contenção por Nikita Efremov. Criador do Tetris, ele representa o elo mais frágil da cadeia: o gênio criativo preso a um sistema que trata ideias como propriedade do Estado. Sua presença silenciosa reforça uma das mensagens centrais do filme — nem sempre quem cria é quem se beneficia.
Toby Jones completa o triângulo como Robert Stein, figura ambígua, símbolo da zona cinzenta onde ética e lucro se confundem.
Guerra Fria em versão pop
O mérito de Tetris está em traduzir disputas jurídicas e políticas em ação dramática. A direção de Jon S. Baird imprime ritmo acelerado, quase de filme de espionagem, usando montagem ágil, trilha pulsante e estética retrô para manter a tensão sempre alta.
Mesmo quando mergulha em termos contratuais e negociações complexas, o filme evita didatismo. Tudo é apresentado de forma clara, fluida e acessível, transformando reuniões e assinaturas em momentos de suspense real.
Tecnologia sem fronteiras, direitos com fronteiras demais
Ao contextualizar a história na Guerra Fria, o filme levanta uma questão ainda atual: ideias circulam livremente, mas os direitos sobre elas nem sempre acompanham esse movimento. O Tetris se espalha pelo mundo enquanto seu criador permanece invisível, distante do sucesso financeiro que ajudou a gerar.
Nesse sentido, o filme dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre propriedade intelectual, indústria criativa e assimetrias entre quem cria e quem comercializa. A tecnologia avança rápido; o reconhecimento, nem tanto.
