Apresentado no Festival de Veneza de 2024, Queer marca um dos projetos mais íntimos e desconcertantes da carreira de Luca Guadagnino. Baseado no romance de William S. Burroughs, o longa abandona qualquer idealização do amor para explorar o desejo como força que desestabiliza, isola e expõe. No centro da narrativa está um homem que ama demais e fala de menos, preso entre o que sente e o pouco que recebe em troca.
Um amor que não encontra repouso
William Lee, vivido por Daniel Craig, é um expatriado americano que atravessa a vida em estado de espera. Alcoólatra funcional, emocionalmente à deriva, ele observa o mundo com uma mistura de cansaço e fome afetiva. Seu amor não se expressa em grandes gestos, mas em silêncios prolongados e olhares que pedem mais do que ousam dizer.
O encontro com Eugene Allerton, interpretado por Drew Starkey, estabelece uma dinâmica marcada pela assimetria. Eugene nunca é cruel, mas tampouco se entrega por inteiro. Essa distância constante transforma o afeto em tensão contínua, revelando como relações podem existir mesmo quando não oferecem abrigo emocional.
Desejo como força que desorganiza
Em Queer, o desejo não é motor de realização, mas de descontrole. Guadagnino filma a atração como algo físico e mental ao mesmo tempo, capaz de corroer limites e comprometer a estabilidade emocional. Amar, aqui, se aproxima perigosamente de um vício — algo que sustenta e destrói na mesma medida.
Essa abordagem desloca o romance de qualquer zona de conforto. O filme sugere que nem toda experiência amorosa conduz ao crescimento ou à cura. Algumas apenas evidenciam fragilidades já existentes, escancarando o impacto do isolamento e da dependência emocional sobre o bem-estar psíquico.
A Cidade do México como estado de espírito
A Cidade do México dos anos 1950 não funciona como pano de fundo exótico. Ela surge como extensão emocional dos personagens: bares esfumaçados, quartos provisórios, encontros que parecem sempre prestes a acabar. Tudo é transitório, inclusive os vínculos afetivos.
Esse espaço urbano reforça a sensação de deslocamento. Cercados por pessoas, os personagens permanecem sós, evidenciando como a ausência de pertencimento pode ser tão nociva quanto a rejeição explícita. O filme, sem discursos diretos, aponta para as consequências humanas de viver à margem, sem linguagem segura para existir plenamente.
Estética do corpo e do silêncio
A linguagem visual de Guadagnino aposta em uma fotografia quente e densa, com a câmera sempre próxima ao corpo, ao suor e aos pequenos gestos. O ritmo é hipnótico e, por vezes, claustrofóbico, criando uma experiência sensorial que exige entrega do espectador.
O erotismo presente nunca é celebratório. Ele carrega melancolia, dúvida e desconforto. Ao evitar glamourizar o desejo, o diretor constrói uma narrativa que valoriza a verdade emocional, mesmo quando ela é incômoda ou difícil de sustentar.
Impacto, recepção e relevância contemporânea
Desde sua estreia em Veneza, Queer tem provocado reações intensas. A atuação de Daniel Craig foi amplamente elogiada como uma virada radical em sua carreira, enquanto o filme como um todo dividiu opiniões entre os que se deixaram atravessar pela proposta e os que rejeitaram seu tom cru.
Comparado a obras como Um Homem Singular, Call Me by Your Name e Happy Together, o longa se destaca por recusar qualquer conciliação fácil. Ao tratar de solidão, identidade e exclusão sem filtros, Queer dialoga com debates atuais sobre saúde emocional, igualdade de expressão e a necessidade de comunidades mais acolhedoras — mesmo quando essas conexões falham.
