Às vezes, rir é a única forma de seguir em frente.
Essa frase ecoa como um mantra em One Day at a Time, a sitcom que reinventou um clássico da televisão para tratar com leveza e profundidade temas que muitas vezes são evitados nas conversas do dia a dia. A série, lançada em 2017, acompanha os altos e baixos da família Alvarez, liderada por uma mãe solo veterana de guerra, sua mãe tradicional e seus dois filhos adolescentes em Los Angeles. Entre gargalhadas e lágrimas, a produção se tornou uma das mais relevantes ao representar minorias com dignidade, humor e coragem.
Neste texto, mergulhamos nos principais aspectos que fizeram de One Day at a Time uma joia rara da TV recente: sua forma de retratar saúde mental, imigração, identidade de gênero, racismo, religião e, principalmente, a força das mulheres latinas em um país que nem sempre reconhece suas batalhas.
Uma mãe no front: entre o exército e os filhos
Penelope Alvarez, interpretada com vigor por Justina Machado, é o coração pulsante da série. Enfermeira, ex-militar e mãe de dois, ela enfrenta diariamente os efeitos do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) causado pela experiência no exército, enquanto tenta manter a estabilidade emocional e financeira da casa. Seu sofrimento nunca é reduzido a estereótipos — é humanizado com sensibilidade e profundidade.
O mérito da série está em mostrar que força não é ausência de dor, mas a disposição em continuar lutando. Penelope encontra apoio em sua terapeuta, em seu grupo de veteranos e, especialmente, nos laços familiares que vão sendo fortalecidos a cada episódio. A presença da avó Lydia, uma matriarca cubana cheia de fé e tradições, oferece contrapontos que equilibram drama e comicidade, revelando os choques e afetos entre gerações.
Heranças culturais e o desafio de pertencer
Na casa dos Alvarez, espanhol e inglês se misturam como as histórias de origem e pertencimento. A cubanidade de Lydia, com seus santos, rezas e saias rodadas, entra em colisão com a realidade mais americana e progressista vivida pelos netos, que questionam tudo — do catolicismo à política de imigração. Mas é nesse conflito que One Day at a Time encontra sua força: não há uma verdade absoluta, e o amor, mesmo diante das diferenças, continua sendo o fio condutor.
A série não romantiza a experiência latina nos Estados Unidos. Pelo contrário, evidencia o racismo cotidiano, os medos relacionados à deportação e os desafios em conquistar espaço em uma sociedade que ainda impõe barreiras para quem foge do padrão branco, anglófono e cis-heteronormativo. Ao colocar uma família imigrante como protagonista, One Day at a Time subverte a norma e planta semente de empatia em quem assiste.
Gênero, sexualidade e o direito de existir
Elena, a filha adolescente de Penelope, é um dos personagens mais carismáticos e revolucionários da série. Desde a primeira temporada, ela explora questões sobre sexualidade, identidade de gênero e ativismo social. Quando se assume lésbica, enfrenta o preconceito — inclusive dentro da própria família — mas também encontra apoio genuíno para construir sua autonomia.
A série também oferece espaço para discussões sobre o machismo estrutural e o papel das mulheres latinas na sociedade. Penelope e Lydia, em especial, protagonizam debates que vão do casamento à liberdade sexual, da fé à política. Essa abordagem, aliada a um tom sempre empático e bem-humorado, torna os episódios mais do que entretenimento: são ferramentas de educação afetiva e social.
Saúde mental sem tabu
Falar sobre depressão, ansiedade e TEPT com honestidade em uma sitcom era impensável até pouco tempo atrás. One Day at a Time quebra esse silêncio com maestria. Mostra que cuidar da saúde mental é tão urgente quanto pagar as contas ou alimentar os filhos — e que isso não é vergonha alguma.
Penelope passa por momentos de colapso, dúvida, cansaço extremo. Mas também se levanta, busca ajuda profissional e constrói redes de apoio. Ao tratar o tema com normalidade, a série convida o público a fazer o mesmo: reconhecer suas dores, procurar ajuda e construir um cotidiano mais leve, mesmo diante dos traumas. Porque, como ela mesma diz, viver é difícil — mas possível, um dia de cada vez.
Quando a comédia encontra o compromisso social
Embora funcione no formato de sitcom tradicional, com risos de plateia e ambientação doméstica, One Day at a Time carrega o peso de uma dramaturgia consciente. É um exemplo de como a cultura pop pode assumir responsabilidade sem perder a leveza. Os roteiros equilibram humor e crítica social com maestria, tratando o público com inteligência e respeito.
A série foi alvo de protestos fervorosos quando foi cancelada pela Netflix após três temporadas. A mobilização dos fãs e de atores da indústria fez com que a produção ganhasse uma quarta temporada, exibida pela Pop TV. Esse movimento revelou não apenas o afeto do público, mas também o valor cultural de narrativas diversas e autênticas na televisão.
