Em O Céu Que Nos Protege (The Sheltering Sky, 1990), Bernardo Bertolucci filma um desmoronamento. Adaptando o romance homônimo de Paul Bowles, o diretor italiano embarca em um épico existencial e visualmente hipnótico sobre o fim de um casamento, o colapso da identidade e a dissolução do ego diante da vastidão do deserto. O que parece, à primeira vista, uma narrativa de fuga e reencontro, revela-se lentamente como uma jornada rumo ao vazio, ao silêncio e à impossibilidade de retorno.
O deserto é destino
Kit e Port Moresby, vividos por Debra Winger e John Malkovich, são um casal norte-americano em crise. Desiludidos com o conforto e a monotonia da vida ocidental, decidem explorar o norte da África, imaginando que ali entre paisagens exóticas e culturas distantes possam reencontrar algum sentido. Mas o que encontram é o deserto. E o deserto, aqui, não é mero pano de fundo: é metáfora viva da dissolução. Cada plano captado pela fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro reforça a ideia de que a paisagem externa apenas reflete o deserto interno desses personagens. A aridez é psíquica. A luz, opressiva. O silêncio, absoluto.
Beleza e colapso
A estética é uma das forças centrais do filme. Bertolucci, em colaboração com Storaro e com a trilha sonora meditativa e dissonante de Ryuichi Sakamoto, constrói uma obra de ritmo lento, com enquadramentos contemplativos e uso magistral da luz natural. O resultado é uma sensação de estranhamento: belo e incômodo, como se o espectador também estivesse sendo consumido pela areia. A narrativa, fragmentada e introspectiva, é entrecortada por reflexões do próprio Paul Bowles, cuja narração pontua o distanciamento entre os personagens e o mundo.
A ruína do amor e da linguagem
Ao longo da viagem, Port adoece e morre. Kit, sua esposa, vagueia sozinha, à deriva entre tribos, corpos e experiências que desafiam sua racionalidade ocidental. A relação entre os dois, já marcada pela falta de comunicação e pelo esvaziamento emocional, se desfaz por completo, não como ruptura, mas como evaporação. O amor, se ainda existia, é consumido lentamente pela areia, como tudo o mais. No deserto de Bertolucci, não há redenção romântica. Há rendição.
Um filme que exige e recompensa
O Céu Que Nos Protege dividiu opiniões desde seu lançamento. Acusado por alguns de ser lento, hermético ou excessivamente simbólico, o filme também foi aclamado por sua beleza visual e profundidade poética. Não é uma obra de respostas fáceis: seu desconforto é parte essencial da experiência. Kit não se reconstrói. Ela não volta. Ela não encontra paz. E talvez essa seja a proposta mais corajosa de Bertolucci: mostrar que algumas jornadas não levam à cura, apenas ao esvaziamento necessário para encarar o abismo.
Não sobre a África mas sobre quem a olha
Importante destacar que o filme, apesar de ambientado no norte da África, não tem a pretensão de falar sobre o continente. Ele é, em essência, sobre a alienação ocidental. A maneira como Kit e Port interagem com as culturas locais revela um olhar exotizante, desconectado, e o filme, embora visualmente apaixonado pelos cenários, não deixa de criticar esse olhar. Há, inclusive, leituras que apontam como O Céu Que Nos Protege antecipa debates contemporâneos sobre alteridade, colonialismo e o limite da experiência estrangeira.
O que nos protege?
No fim das contas, o que Bertolucci nos oferece é uma meditação sobre a vulnerabilidade. Nada protege os protagonistas, nem o amor, nem a arte, nem a fuga. Talvez apenas o próprio deserto, em sua total indiferença, funcione como um espelho honesto. O Céu Que Nos Protege é, acima de tudo, uma obra sobre se desfazer. E, ao fazê-lo, tornar-se um com o silêncio. Uma experiência de cinema rara, desconcertante e, para quem aceita o convite, profundamente transformadora.
