Disponível na Netflix no Brasil, Número 24 (2024) acompanha Gunnar Sønsteby, integrante da resistência à ocupação nazista da Noruega durante a Segunda Guerra Mundial. Dirigido por John Andreas Andersen, o drama apresenta Sjur Vatne Brean e Erik Hivju como o protagonista em diferentes idades. A trajetória combina operações clandestinas e um encontro com estudantes para discutir as consequências das decisões tomadas durante o conflito.
Da ocupação à organização clandestina
Sønsteby vivia em Oslo quando a Alemanha invadiu a Noruega, em 1940. Sua participação na resistência envolveu articulação com grupos locais, atuação junto ao serviço britânico de operações especiais e organização de sabotagens. O título remete a um dos codinomes utilizados para evitar a identificação pelas autoridades de ocupação.
Na narrativa, essa transformação se desenvolve por meio de tarefas que dependem de organização e discrição. Documentos, contatos e circulação de informações integram o esforço de resistência. O percurso permite observar como a atuação individual depende de uma rede: cada missão exige colaboração, mas também impõe limites ao que pode ser compartilhado entre seus participantes.
O passado reconstruído diante dos estudantes
O roteiro de Erlend Loe e Espen von Ibenfeldt alterna os anos de ocupação com uma palestra do protagonista já idoso. A estrutura apresenta os acontecimentos a partir de alguém que sobreviveu e precisou decidir como contá-los. Os estudantes participam desse processo ao questionar os métodos empregados pela resistência.
Essa escolha permite interpretar a memória como uma reconstrução sujeita a silêncios e justificativas. Existe uma diferença entre o que o personagem apresenta publicamente e aquilo que as cenas do passado revelam ao espectador. O encontro entre gerações, portanto, também funciona como um exame dos limites do testemunho individual.
Dois intérpretes para uma trajetória
Sjur Vatne Brean interpreta o jovem Gunnar, cuja caracterização está associada ao método, à vigilância e ao controle das próprias reações. Erik Hivju assume a fase posterior, quando a tarefa de relatar os acontecimentos exige revisitar experiências mantidas à distância. A divisão do papel estabelece uma relação entre a disciplina necessária à clandestinidade e o esforço posterior de administrar as lembranças.
Na análise publicada pelo Montages, Gunnar Iversen destaca que o retrato acrescenta complexidade ao mostrar experiências traumáticas sob a aparente serenidade do protagonista. Essa leitura ajuda a compreender a função dramática das duas idades: a postura do veterano pode ser examinada à luz das decisões e perdas apresentadas durante a juventude.
Suspense e descontinuidades da montagem
As operações de sabotagem, o risco de captura e a possibilidade de traição fornecem os elementos de suspense. Ao acompanhar planejamento e execução, a direção relaciona a tensão à necessidade de agir com precisão. As passagens dedicadas à palestra interrompem esse movimento para recolocar os acontecimentos em discussão.
Essa alternância também recebeu ressalvas. Daniel Hart, do Ready Steady Cut, observou que algumas transições, especialmente nos deslocamentos entre Londres e Oslo, reduzem a percepção das dificuldades da viagem. A crítica aponta uma consequência da condensação narrativa: avançar rapidamente entre episódios facilita acompanhar a trajetória, mas pode diminuir o peso de obstáculos enfrentados entre uma missão e outra.
Entre a homenagem e o questionamento histórico
As execuções realizadas pela resistência colocam em discussão a relação entre finalidade política, responsabilidade individual e uso da violência. Robert Daniels, em RogerEbert.com, avalia que o filme permanece predominantemente patriótico e investiga de maneira limitada as ações e a personalidade de Sønsteby. Sob essa perspectiva, apresentar perguntas difíceis não significa desenvolver todas as suas implicações.
O encontro com os estudantes, ainda assim, oferece espaço para uma reflexão sobre educação histórica. Preservar relatos de quem enfrentou a ocupação pode coexistir com a análise de suas escolhas e dos critérios usados para justificá-las. É nessa relação entre reconhecimento e investigação que Número 24 situa sua discussão sobre liberdade, memória e responsabilidade coletiva.
