Lançado pela Netflix em 9 de maio de 2025, Nonnas acompanha Joe Scaravella, interpretado por Vince Vaughn, após a morte da mãe e da avó que marcaram sua relação com a cozinha e com a família. Dirigido por Stephen Chbosky e escrito por Liz Maccie, o filme acompanha a criação de um restaurante em Staten Island no qual mulheres mais velhas preparam receitas de suas tradições. Inspirada na história real do Enoteca Maria, a produção usa o empreendimento para discutir luto, envelhecimento, conhecimento e pertencimento.
Luto, memória e a criação de um novo propósito
O ponto de partida de Nonnas é uma perda familiar que altera a rotina e a identidade de Joe. A morte da mãe não representa apenas a ausência de uma pessoa próxima, mas também o desaparecimento de hábitos, receitas, conversas e referências que faziam parte de sua vida. A cozinha aparece como uma espécie de arquivo afetivo, no qual sabores e gestos estão associados a pessoas que já não podem reproduzi-los.
A decisão de Joe de abrir um restaurante surge, portanto, como uma tentativa de transformar essa memória em algo que continue acontecendo no presente. O empreendimento não recupera aquilo que foi perdido, nem pretende substituir sua mãe ou sua avó. O percurso do personagem está justamente em compreender que continuidade não significa reproduzir o passado de maneira idêntica, mas permitir que parte de seu significado encontre novas formas.
Essa mudança também estrutura o desenvolvimento dramático. O restaurante começa associado a uma experiência individual de luto, mas gradualmente se torna um espaço compartilhado. A memória de uma família passa a envolver outras mulheres, funcionários, amigos e clientes, fazendo com que uma experiência privada adquira dimensão comunitária.
As nonnas como conhecimento vivo
Roberta, Antonella, Teresa e Gia não são apresentadas apenas como representações de uma geração mais velha. Cada uma possui personalidade, conflitos, experiências e formas próprias de compreender a culinária e a vida. Lorraine Bracco, Brenda Vaccaro, Talia Shire e Susan Sarandon interpretam personagens que continuam tomando decisões, trabalhando, discordando e estabelecendo novos vínculos.
Essa escolha permite que o filme questione a ideia de que conhecimento profissional depende exclusivamente de certificação ou formação institucional. As personagens acumulam décadas de experiência doméstica e cultural, muitas vezes adquirida fora de ambientes reconhecidos como profissionais. Quando esse conhecimento chega ao restaurante, aquilo que antes poderia ser tratado como uma atividade cotidiana passa a ser reconhecido também por seu valor econômico e cultural.
A culinária funciona ainda como forma de transmissão entre gerações. Uma receita pode registrar ingredientes e etapas, mas não necessariamente contém todo o conhecimento utilizado por quem a prepara. Tempo, textura, cheiro e pequenas adaptações dependem muitas vezes da experiência. O filme apresenta, assim, uma questão relevante sobre preservação cultural: conhecimentos que permanecem apenas na memória individual podem desaparecer quando não são compartilhados.
Tradição, diferenças e convivência
O restaurante também serve para mostrar que uma identidade cultural não é necessariamente homogênea. Roberta e Antonella possuem referências italianas distintas e entram em conflito justamente porque cada uma entende suas próprias práticas culinárias como parte de uma tradição legítima. A produção evita apresentar a culinária italiana como um conjunto único e uniforme.
A convivência entre as personagens transforma a cozinha em um espaço de negociação. Elas precisam conciliar preferências, métodos e experiências diferentes para alcançar um objetivo comum. Nesse sentido, o filme trata a diversidade não apenas como reunião de pessoas distintas, mas como um processo que exige escuta, adaptação e construção de acordos.
A questão também se relaciona ao envelhecimento feminino. As personagens não são reduzidas ao papel de avós carinhosas ou guardiãs passivas do passado. Elas demonstram desejos, inseguranças, conflitos e capacidade de mudança. O trabalho no restaurante oferece uma nova dimensão pública para competências que foram desenvolvidas ao longo de suas vidas, sem estabelecer a idade como limite para novas experiências.
Direção, roteiro e construção dos personagens
A direção de Stephen Chbosky conduz a narrativa entre o drama familiar e a comédia de convivência, enquanto o roteiro de Liz Maccie utiliza o restaurante como eixo para conectar as histórias dos personagens. Joe funciona como ponto de entrada para o público, mas o desenvolvimento gradualmente distribui a atenção entre as mulheres que passam a integrar o empreendimento.
Vince Vaughn assume uma atuação mais contida do que aquela associada a algumas de suas comédias anteriores. Joe é construído como alguém inicialmente desorientado pelo luto, cuja transformação acontece por meio das relações estabelecidas durante a criação do restaurante. Lorraine Bracco, Brenda Vaccaro, Talia Shire e Susan Sarandon recebem personagens com características próprias, enquanto Linda Cardellini, Joe Manganiello e Drea de Matteo desempenham funções importantes na rede de apoio formada ao redor de Joe.
O ritmo acompanha a estrutura de uma história de superação relativamente convencional, com obstáculos empresariais, conflitos pessoais e momentos de aproximação entre os personagens. A previsibilidade de alguns acontecimentos também faz parte da construção do gênero. Em vez de depender de grandes reviravoltas, o filme concentra seu desenvolvimento na transformação gradual das relações e na mudança da finalidade atribuída ao restaurante.
História real, legado e relevância cultural
Nonnas é inspirado na trajetória de Jody “Joe” Scaravella, fundador do Enoteca Maria, em Staten Island. A história real envolve a abertura do restaurante em 2007 após perdas familiares e a participação de avós italianas na preparação das refeições. Posteriormente, o projeto passou a incorporar mulheres de diferentes origens culturais, ampliando a proposta para além da tradição italiana inicialmente apresentada.
A distinção entre realidade e ficção é importante para compreender a obra. As quatro nonnas centrais e outros personagens foram construídos para o filme e não correspondem necessariamente, de forma individual, às pessoas que participaram da trajetória real de Scaravella. Obstáculos e relações também são organizados ou ampliados pelo roteiro para criar um arco dramático. A produção, portanto, utiliza uma história verdadeira como ponto de partida, mas não deve ser interpretada como registro documental dos acontecimentos.
O aspecto cultural mais relevante está na transformação de uma receita familiar em instrumento de transmissão. A cozinha deixa de ser apenas espaço doméstico e passa a funcionar como ponto de encontro entre gerações, experiências e culturas. Ao fazer isso, Nonnas associa memória a continuidade: preservar uma tradição não significa mantê-la imóvel, mas criar condições para que conhecimentos, histórias e práticas possam ser compartilhados com outras pessoas. O restaurante que nasce do luto de Joe passa, dessa maneira, a representar uma forma de legado construída no presente.
