Lançado em 2020, Mank acompanha Herman J. Mankiewicz durante o período em que trabalha no roteiro de Cidadão Kane. Interpretado por Gary Oldman, o roteirista é apresentado em uma fase marcada pelo alcoolismo, pelo desgaste profissional e pelo isolamento, enquanto tenta concluir o texto que posteriormente seria associado a um dos filmes mais importantes da história do cinema. A narrativa, porém, não se limita ao processo de escrita e utiliza uma estrutura de flashbacks para retornar à Hollywood dos anos 1930.
A partir dessas lembranças, David Fincher constrói um percurso que passa por nomes como William Randolph Hearst, Marion Davies, Louis B. Mayer e Irving Thalberg, além de abordar a campanha política de Upton Sinclair na Califórnia. O filme estabelece uma relação entre cinema, dinheiro, imprensa e influência política, mostrando como a indústria audiovisual também pode participar da construção da percepção pública. Nesse contexto, a criação de Cidadão Kane deixa de ser apenas uma questão artística e passa a envolver relações de poder.
Mankiewicz entre talento e autodestruição
Herman J. Mankiewicz é retratado como um profissional capaz de observar rapidamente as pessoas e transformar comportamentos, contradições e vaidades em diálogos. Seu conhecimento dos ambientes que frequenta permite que circule entre diferentes grupos de Hollywood, inclusive próximos de figuras economicamente influentes. Ao mesmo tempo, essa capacidade de compreender os outros não corresponde necessariamente à capacidade de administrar a própria trajetória.
O alcoolismo funciona como parte importante dessa construção. Quando está sóbrio, Mank tende a observar e analisar o ambiente; quando bebe, seus filtros diminuem e sua franqueza pode tanto revelar conflitos quanto provocar consequências profissionais e pessoais. O filme, assim, diferencia inteligência, sinceridade e autogovernança. Compreender uma estrutura de poder não significa necessariamente saber agir dentro dela.
Hollywood como sistema de poder
A Hollywood apresentada por Fincher combina criação artística com estruturas empresariais. Roteiristas, atores, diretores e técnicos participam da produção, mas dependem de estúdios, contratos, financiamento, distribuição e divulgação. A questão da autoria, portanto, aparece vinculada a uma estrutura econômica maior, na qual diferentes participantes possuem diferentes formas de poder.
William Randolph Hearst representa uma dessas formas. Charles Dance interpreta o magnata como alguém cuja influência não depende necessariamente de demonstrações explícitas de força. Seus jornais, propriedades, recursos financeiros e relações sociais estabelecem uma posição que permite interferir no comportamento de outras pessoas. A parábola do macaco do realejo, apresentada por Hearst a Mank, sintetiza essa relação entre talento e dependência estrutural: o artista pode executar a apresentação, mas outra pessoa pode controlar o instrumento.
A distinção entre proximidade e poder também aparece nesse contexto. Mank consegue frequentar ambientes reservados às pessoas mais influentes de Hollywood, mas ser convidado para uma mesa não significa controlar as decisões tomadas nela. O filme utiliza essa contradição para questionar até que ponto um profissional inserido em determinado círculo possui autonomia efetiva.
A propaganda e a campanha contra Upton Sinclair
A dimensão política de Mank amplia a discussão sobre o poder da narrativa. Durante a campanha de Upton Sinclair para o governo da Califórnia, em 1934, setores da indústria cinematográfica participaram de esforços para prejudicar sua candidatura. O filme mostra a produção de falsos cinejornais que apresentavam atores interpretando supostos cidadãos e exploravam determinadas percepções negativas sobre Sinclair.
O episódio permite discutir uma questão que continua relevante: uma imagem pode ser verdadeira como registro visual e, ao mesmo tempo, enganosa como evidência. A câmera pode registrar uma cena real, mas a produção, a edição, o enquadramento e a apresentação do material podem direcionar sua interpretação. Quando uma mensagem deliberadamente persuasiva assume a aparência de informação neutra, a identificação de sua origem e de seus interesses torna-se fundamental.
Essa abordagem também aproxima Mank de discussões contemporâneas sobre desinformação e alfabetização midiática. O mecanismo tecnológico mudou, mas perguntas básicas permanecem: quem produziu determinado conteúdo, quem financiou, qual objetivo perseguia, que informações foram omitidas e qual comportamento pretendia estimular?
Marion Davies e a relação entre ficção e realidade
Amanda Seyfried interpreta Marion Davies como uma personagem que não se resume à sua relação com Hearst. O filme apresenta uma mulher capaz de compreender o ambiente em que está inserida e estabelece uma relação de proximidade com Mank. Essa caracterização é especialmente importante porque envolve a associação histórica entre Davies e Susan Alexander Kane, personagem de Cidadão Kane.
A aproximação entre as duas figuras, entretanto, não deve ser tomada como equivalência histórica. Davies possuía uma trajetória própria como atriz, e sua relação com Hearst não corresponde diretamente à dinâmica apresentada entre Kane e Susan. Ao humanizar Marion, Mank também evidencia o problema de transformar pessoas reais em matéria-prima para personagens fictícios. A liberdade artística não elimina automaticamente as consequências de uma representação para quem serviu de referência.
A disputa pelo crédito de Cidadão Kane
O principal conflito profissional do filme envolve a autoria de Cidadão Kane. Historicamente, o roteiro é creditado a Herman J. Mankiewicz e Orson Welles, e a participação de ambos permanece registrada na produção do longa de 1941. Mank, contudo, privilegia a perspectiva de Mankiewicz e apresenta sua contribuição como elemento central para a construção do roteiro.
Essa escolha é particularmente significativa porque existe uma longa discussão historiográfica sobre a autoria de Cidadão Kane. A disputa ganhou força especialmente após textos que defenderam Mankiewicz como principal responsável pelo roteiro, enquanto pesquisas posteriores apontaram para uma colaboração mais ampla entre ele e Welles. O próprio filme, portanto, participa da discussão que apresenta ao público.
A questão central não precisa ser necessariamente determinar qual dos dois foi o único autor. Uma leitura mais abrangente considera as diferentes contribuições envolvidas: Mankiewicz forneceu material e experiência acumulada sobre o ambiente que conhecia; Welles participou da revisão e transformação do projeto e posteriormente dirigiu e protagonizou a produção. O crédito conjunto registrado historicamente evita reduzir uma criação complexa a uma disputa simples entre dois nomes.
Crédito, remuneração e patrimônio intelectual
A luta de Mank pelo próprio nome também permite separar conceitos que frequentemente são tratados como equivalentes. Receber uma remuneração não é necessariamente a mesma coisa que receber reconhecimento autoral. Da mesma forma, autoria, titularidade jurídica, controle econômico e crédito público podem representar dimensões diferentes de uma mesma criação.
Para profissionais das indústrias criativas, o crédito possui valor profissional. Ele contribui para a construção de reputação, histórico de trabalho e oportunidades futuras. Por isso, a discussão apresentada pelo filme não pode ser reduzida ao ego de Mankiewicz. Existe também uma questão de memória profissional: quem será associado à criação quando a obra continuar existindo décadas depois de seus realizadores?
Ao mesmo tempo, o conflito demonstra os riscos de transformar reconhecimento em uma disputa de soma zero. Reconhecer a contribuição de Mankiewicz não exige necessariamente negar a contribuição de Welles. Uma produção colaborativa pode envolver diferentes autores e funções sem que o reconhecimento de um participante precise apagar o outro.
A estrutura de Mank reproduz a estrutura de Cidadão Kane
A forma narrativa escolhida por David Fincher reforça o conteúdo do filme. Assim como Cidadão Kane reconstrói a trajetória de Charles Foster Kane por meio de diferentes períodos e perspectivas, Mank apresenta Mankiewicz através de acontecimentos que não são organizados de maneira linear.
O espectador recebe informações aos poucos e precisa relacionar os acontecimentos do passado com o processo de escrita do roteiro. A estrutura também reforça uma das principais questões da obra: nenhuma biografia chega ao público sem seleção, montagem e interpretação. Escolher quais acontecimentos serão apresentados já significa construir determinada leitura sobre uma pessoa.
Nesse sentido, Mank não apenas fala sobre narrativa. Ele também demonstra como uma narrativa é construída. A obra apresenta uma versão da história da criação de Cidadão Kane enquanto discute justamente o poder de escolher uma versão histórica.
O estilo visual como reconstrução do passado
A fotografia de Erik Messerschmidt utiliza preto e branco e referências visuais do cinema clássico para aproximar o filme de uma produção da época retratada. A proposta não consiste simplesmente em reproduzir a aparência de um filme antigo, mas em criar uma experiência contemporânea que dialogue diretamente com a memória cinematográfica de Hollywood.
O trabalho utiliza tecnologia digital moderna para produzir uma aparência associada ao passado. Essa contradição reforça a própria estrutura temática do longa: o espectador nunca está diante do passado em estado puro, mas diante de uma representação produzida no presente. O mesmo princípio se aplica à trilha de Trent Reznor e Atticus Ross, que abandona parte da sonoridade eletrônica associada à dupla para trabalhar com elementos orquestrais e jazzísticos adequados ao período retratado.
A fotografia e o design de produção foram reconhecidos no Oscar de 2021. O filme recebeu dez indicações, incluindo Melhor Filme, Direção, Ator para Gary Oldman e Atriz Coadjuvante para Amanda Seyfried, e venceu nas categorias de Fotografia e Design de Produção.
O roteirista invisível
Um dos aspectos centrais de Mank está na posição do roteirista dentro da própria indústria cinematográfica. O público vê atores, cenários, figurinos, fotografia e direção, mas o texto desaparece quando é incorporado à obra audiovisual. A palavra escrita passa a existir na interpretação dos atores, na montagem e na direção.
Essa invisibilidade ajuda a explicar a importância atribuída ao crédito. O nome associado ao roteiro funciona como registro de uma contribuição que poderia desaparecer atrás das outras etapas da produção. A discussão de Mankiewicz, portanto, extrapola Cidadão Kane e alcança diferentes profissões criativas nas quais o resultado final pode ser mais conhecido do que as pessoas responsáveis por partes fundamentais de sua construção.
A questão também se relaciona à documentação. Contratos, versões de roteiro, registros de produção, créditos e arquivos podem desempenhar papel importante na reconstrução histórica de uma obra. Sem esses registros, uma versão mais repetida ou mais poderosa pode acabar sendo confundida com a versão mais precisa.
O poder de controlar a narrativa
Mank apresenta diferentes formas de poder sem estabelecer uma hierarquia única entre elas. Mankiewicz possui a palavra; Welles, a direção, a performance e o acesso a uma oportunidade excepcional; Hearst possui capital e meios de comunicação; Mayer representa a estrutura empresarial; Thalberg, a capacidade de transformar objetivos em operações dentro do estúdio.
Essa distribuição ajuda a compreender que poder não significa apenas capacidade de dar ordens. Pode significar controlar dinheiro, propriedade, produção, distribuição, informação ou reputação. Uma pessoa pode possuir a melhor ideia e ainda depender de outra que controla os meios necessários para colocá-la em circulação.
É justamente nessa relação que o filme estabelece sua principal discussão. Criar uma história e controlar a narrativa sobre sua criação são coisas diferentes. Uma pessoa pode escrever uma obra sem controlar sua distribuição, assim como outra pode possuir os canais de divulgação sem ter produzido o conteúdo. O poder resulta da interação entre essas diferentes posições.
Uma obra sobre quem escreve a história
Ao final, Mank não precisa ser interpretado apenas como uma defesa da autoria de Herman J. Mankiewicz. O filme também pode ser entendido como uma investigação sobre os mecanismos pelos quais determinadas versões da história sobrevivem.
A obra de David Fincher apresenta um personagem que deseja assegurar que sua participação não seja apagada, mas, ao mesmo tempo, constrói uma narrativa que privilegia sua perspectiva sobre um acontecimento historicamente disputado. Esse paradoxo é parte importante da experiência proposta pelo longa: um filme sobre o poder da narrativa também precisa escolher uma narrativa.
É nesse ponto que Mank se aproxima de Cidadão Kane. O filme de Orson Welles pergunta quem foi Charles Foster Kane e apresenta diferentes versões de sua trajetória. Mank pergunta quem criou Kane e também oferece uma versão. Em ambos os casos, a resposta depende de quem está contando, de quais evidências são consideradas e de quais informações permanecem fora do enquadramento.
