Dirigido por Kasi Lemmons e estrelado por Cynthia Erivo em uma performance eletrizante, Harriet (2019) conta a história real de Harriet Tubman, a mulher que escapou da escravidão e se tornou uma das maiores líderes abolicionistas dos EUA. O filme, que mistura drama histórico e ação, mostra não apenas sua fuga arriscada, mas também suas incursões perigosas para libertar centenas de escravizados através da Underground Railroad.
Com uma narrativa intensa e fotografia que alterna entre tons sombrios e luzes de esperança, a obra celebra Tubman como uma figura de fé inquebrantável e determinação feroz. Cynthia Erivo, indicada ao Oscar por seu papel, captura a força física e espiritual de Harriet, humanizando a lenda e mostrando os sacrifícios por trás de seu legado.
A Fuga que Mudou Tudo
Harriet Tubman, nascida Araminta Ross, começa sua jornada como uma escravizada no estado de Maryland. Após descobrir que será vendida para outro dono, ela decide fugir sozinha, enfrentando florestas, rios e caçadores de escravos em uma travessia de mais de 160 km. Sua determinação é movida não apenas pelo instinto de sobrevivência, mas por uma convicção espiritual profunda — ela acredita que Deus a guia em cada passo.
Ao chegar à Filadélfia, Harriet experimenta pela primeira vez o sabor da liberdade. No entanto, em vez de se acomodar, ela decide voltar ao Sul, arriscando a própria vida para resgatar sua família e outros escravizados. Essa decisão marca o início de sua transformação em “Moisés”, como ficaria conhecida entre aqueles que ajudou a libertar.
Coragem e Fé Além do Comum
O filme explora a espiritualidade de Harriet como uma força motriz. Suas visões e premonições, muitas vezes desacreditadas até por aliados, são retratadas não como delírios, mas como uma conexão divina que a protege em momentos críticos. Essa fé inabalável a sustenta mesmo quando o perigo parece insuperável.
Além disso, Harriet não romantiza sua jornada. As cenas de perseguição e violência são brutais, mostrando os horrores da escravidão sem edulcoração. Ainda assim, o filme mantém um tom de esperança, reforçando que sua luta não era apenas por si mesma, mas por uma causa maior.
Liderança e o Poder do Legado
Harriet Tubman não foi apenas uma fugitiva — ela se tornou uma estrategista audaciosa. O filme mostra como ela usou disfarces, códigos secretos e rotas alternativas para burlar os caçadores de escravos. Sua inteligência e coragem inspiraram outros abolicionistas, incluindo figuras como Frederick Douglass, embora o filme foque principalmente em sua trajetória pessoal.
Sua atuação na Guerra Civil, como espiã e enfermeira, e seu trabalho posterior pelo sufrágio feminino também são mencionados, reforçando que sua luta sempre foi pela liberdade em todas as suas formas. O longa encerra com um tributo emocionante ao seu legado, lembrando que sua história não pertence apenas ao passado, mas ecoa até hoje.
Violência e Esperança: Um Retrato Necessário
Harriet não hesita em mostrar a crueldade da escravidão — as surras, as humilhações e a desumanização são retratadas com realismo. No entanto, o filme evita o sensacionalismo, focando na resistência em vez do sofrimento. Cada ato de violência é contrastado com um ato de bravura, seja uma fuga bem-sucedida ou um gesto de solidariedade entre os oprimidos.
Essa abordagem reforça a importância de contar histórias como a de Tubman no cinema. Em um mundo onde desigualdades e opressões ainda persistem, sua trajetória serve como lembrete de que a mudança é possível, mesmo quando tudo parece perdido.
Representação e Relevância no Cinema
Harriet é um marco por ser o primeiro grande filme de Hollywood dedicado exclusivamente à vida de Tubman. A escolha de Cynthia Erivo, uma atriz negra britânica, gerou debates sobre representação, mas sua atuação incontestável silenciou críticas. Ela não apenas interpreta Harriet — ela a personifica, trazendo à tona sua vulnerabilidade e força em igual medida.
Além disso, a direção de Kasi Lemmons, uma das poucas cineastas negras de destaque em Hollywood, garante que a narrativa seja contada com sensibilidade e autenticidade. O filme não apenas homenageia uma heroína histórica, mas também abre espaço para mais histórias de resistência negra no cinema.
Por que Harriet Ainda Importa?
Mais de um século após sua morte, Harriet Tubman permanece um símbolo de coragem e liberdade. Seu nome está em escolas, museus e até em propostas para substituir figuras controversas em notas de dólar. Mas além dos monumentos, sua verdadeira herança está na inspiração que oferece a todos que lutam contra injustiças.
Harriet não é apenas um filme biográfico — é um chamado à ação. Num mundo onde racismo, desigualdade e opressão ainda existem, a história de Tubman nos lembra que uma pessoa determinada pode, sim, mudar o curso da história.
