Da pobreza extrema nos campos do sul dos Estados Unidos ao topo das paradas mundiais, a vida de James Brown é contada em “Get On Up: A História de James Brown”, filme lançado em 2014 que ressurge nas plataformas digitais brasileiras em 2025. Com direção de Tate Taylor e produção de Mick Jagger, a cinebiografia estrelada por Chadwick Boseman apresenta um retrato intenso, explosivo e contraditório do chamado Padrinho do Soul.
Dançando com a dor
“Antes de mudar a música, James Brown precisou aprender a dançar com a dor.” Essa frase guia o ritmo do filme, que mergulha na infância marcada pelo abandono, violência e racismo. Criado na Carolina do Sul durante os anos de segregação racial, Brown conheceu cedo a exclusão e a luta por sobrevivência. Seu contato com a música começou ainda jovem, entre igrejas, bandas militares e prisões. A partir desse ambiente hostil, ele forjou sua própria linguagem artística, misturando ritmo, performance e fúria.
Um artista que criou o próprio palco
A narrativa estilizada do filme quebra a linearidade clássica das cinebiografias. Brown conversa com o espectador diretamente, quebra a quarta parede e assume o controle da própria história. Essa escolha reforça a ideia de que ele não apenas viveu o que viveu, mas também construiu com as próprias mãos o mito em torno de seu nome. A montagem vibrante, o figurino detalhado e a trilha sonora arrebatadora criam uma experiência sensorial que traduz o impacto de sua música no corpo e na cultura.
Identidade negra e indústria musical
Get On Up mostra como James Brown não foi apenas um cantor, mas um símbolo de força para a comunidade negra. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, ele usou sua visibilidade para afirmar o orgulho racial em um país profundamente dividido. No entanto, o filme também expõe as tensões entre sua ascensão meteórica e os bastidores da indústria musical, muitas vezes marcada por exploração e falta de reconhecimento para artistas negros. Brown se destacou por assumir o controle sobre sua produção artística e financeira, algo raro para músicos afro-americanos da época.
Entre genialidade e contradição
O longa não romantiza seu protagonista. Ao contrário, explora as camadas humanas e as contradições de Brown. Ele é mostrado como um homem carismático e visionário, mas também autoritário, impulsivo e marcado por traumas. As relações pessoais, especialmente com colegas de banda e figuras femininas, revelam os conflitos entre o artista e o homem. Essa ambivalência é interpretada de forma intensa por Chadwick Boseman, em uma das performances mais marcantes de sua carreira.
Um legado que resiste
Com 80 por cento de aprovação no Rotten Tomatoes e indicação a prêmios como o Critics’ Choice Awards e o NAACP Image Awards, o filme foi elogiado por sua abordagem corajosa e estilísticamente ousada. Mais do que uma biografia, Get On Up é uma reflexão sobre o poder da arte como resistência. A música de James Brown influenciou desde o funk e o hip hop até movimentos de empoderamento negro. Seu grito “Say it loud – I’m Black and I’m proud” se tornou um marco da afirmação identitária em uma era de opressão.
Uma história que reverbera nos dias de hoje
A trajetória de Brown dialoga diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Ao retratar desigualdades raciais, ausência de oportunidades educacionais, violência policial e machismo cultural, o filme escancara os desafios estruturais enfrentados por artistas negros ao longo do século vinte. Mas também aponta para a arte como caminho de transformação social, inspiração coletiva e reparação histórica.
O som que mudou o mundo
Get On Up transforma a vida de James Brown em espetáculo, mas também em manifesto. Cada passo coreografado e cada batida de tambor ecoam como um grito de liberdade de quem precisou conquistar à força seu espaço no mundo. Mais do que entreter, o filme emociona e provoca. Ele nos lembra que o soul, o funk e o groove nasceram não apenas da musicalidade, e sim de uma luta que, transformada em som, se espalhou pelo mundo.
