Lançado em 2017, Foxtrot se tornou um dos filmes mais impactantes da última década ao abordar de forma visceral como a guerra molda não apenas soldados, mas famílias inteiras. Alternando entre intimismo, crítica política e metáforas visuais, o longa mostra que, assim como na dança que dá nome ao título, os passos da dor e da violência parecem sempre retornar ao mesmo ponto.
Luto e trauma
O filme se abre com um golpe devastador: Michael e Daphna Feldmann recebem a notícia da morte do filho Jonathan, soldado do exército israelense. O luto do casal é filmado em espaços fechados, claustrofóbicos, onde cada olhar e silêncio carregam um peso insuportável.
Essa primeira parte é um mergulho no impacto imediato da perda, mostrando como a morte de um filho desestrutura não apenas os pais, mas também a percepção de mundo que eles carregavam. Maoz retrata a dor sem melodrama, optando por uma abordagem crua, quase sufocante.
O absurdo da guerra
Na segunda parte, a narrativa se desloca para a rotina de Jonathan e seus companheiros em um posto militar isolado. Ali, entre momentos de tédio, violência gratuita e surrealismo, o filme expõe a banalidade e o absurdo da guerra. Jovens soldados, muitas vezes sem preparo emocional, lidam com a monotonia e, ao mesmo tempo, com decisões que podem custar vidas.
Essa abordagem revela como a guerra não é feita apenas de grandes batalhas, mas também de pequenos gestos repetitivos, absurdos e, muitas vezes, desumanizantes. O contraste entre a rigidez militar e a fragilidade da juventude é um dos pontos mais fortes dessa parte.
Família, memória e repetição
No ato final, o foco retorna à família Feldmann, agora marcada pelo trauma que atravessa gerações. O filme deixa claro que o luto não termina com a notícia, mas se prolonga na vida cotidiana, moldando memórias e relações familiares.
A metáfora do foxtrote — uma dança em que os passos sempre levam de volta ao mesmo ponto — resume a sensação de repetição que atravessa a história. Tanto a violência da guerra quanto o luto familiar parecem seguir um ciclo sem fim, onde cada movimento já está predestinado a retornar.
Entre poesia e crítica política
Visualmente, Foxtrot equilibra poesia e dureza. A fotografia contrasta interiores sufocantes e exteriores áridos, enquanto o ritmo narrativo se alterna entre contemplação e explosões dramáticas. Essa dualidade reflete o próprio tema: a guerra como absurdo e a dor como experiência íntima e inevitável.
O filme foi aclamado internacionalmente, recebendo o Grande Prêmio do Júri em Veneza, mas também gerou polêmica em Israel, por sua crítica ao exército e ao ciclo militarista. Essa tensão mostra a força da obra como arte política e como reflexão universal sobre violência e perda.
