Jerzy Skolimowski, aos 84 anos, transformou um simples jumento em espelho da alma humana. EO (2022) é uma fábula moderna, silenciosa e arrebatadora que percorre estradas, fazendas, circos e fronteiras, revelando a beleza e a brutalidade de um mundo que perdeu a capacidade de compaixão. Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, o filme não se explica — ele convida o espectador a ver, ouvir e, acima de tudo, sentir.
Um olhar sem julgamentos
A jornada de EO começa em um circo, ao lado de Kassandra, a única pessoa que lhe oferece afeto genuíno. Quando são separados, inicia-se uma travessia errante que atravessa diversas faces da humanidade: o carinho, o abuso, a fé e a indiferença.
O animal, ser silencioso e inocente, observa sem entender. E é justamente essa ausência de julgamento que torna o filme tão perturbador. Skolimowski substitui o diálogo pelo olhar — e nele cabe o peso de toda uma civilização que esqueceu o que é empatia.
Cada encontro de EO é uma pequena parábola sobre poder, consumo e solidão. Nas mãos do diretor, o cotidiano se torna alegoria, e o mundo, um palco de contradições.
A fábula que reflete a civilização
Inspirado no clássico Au hasard Balthazar, de Robert Bresson, EO atualiza a parábola para o século XXI — um tempo em que a natureza é mercadoria e a vida, espetáculo.
O jumento passa por mãos humanas de todas as classes: trabalhadores, religiosos, jovens, aristocratas. Cada um o trata conforme suas crenças, carências e vícios. Através dessas passagens, o filme constrói um retrato devastador da nossa relação com tudo o que consideramos “inferior”.
Skolimowski não busca acusar, mas expor. O que vemos é o reflexo do próprio humano em suas criações e crueldades, sem artifício ou retórica.
O cinema como sensação
A força de EO está na experiência sensorial. Com fotografia de Michał Dymek, o filme alterna cores saturadas, ângulos impossíveis e travellings hipnóticos que colocam o público dentro da percepção do animal. A câmera não observa — ela habita.
A trilha sonora de Paweł Mykietyn mistura sons eletrônicos e corais sagrados, criando uma atmosfera quase mística, onde cada relincho e cada respiração ganham um peso existencial.
Em 86 minutos, a obra oscila entre sonho e pesadelo, ternura e desespero. É o tipo de cinema que não precisa de palavras para fazer o espectador repensar a própria humanidade.
A inocência como resistência
No fundo, EO fala sobre todos os que atravessam o mundo sem serem vistos — os seres descartáveis, humanos ou não, que sustentam as engrenagens da civilização moderna.
O jumento é símbolo de pureza, mas também de resiliência. Sua jornada é uma peregrinação trágica e espiritual, que questiona o valor da vida em um planeta onde compaixão virou exceção.
A obra de Skolimowski é, ao mesmo tempo, denúncia e oração: um lembrete de que ainda há sensibilidade sob o concreto.
