Lançado em 2024, Eddington marca uma virada na filmografia de Ari Aster. Conhecido pelo horror psicológico e simbólico, o diretor troca o sobrenatural pelo cotidiano recente para construir um retrato ácido de uma sociedade em ruptura. Ambientado em uma pequena cidade do Novo México durante a pandemia, o filme observa como crises sanitárias podem rapidamente se transformar em crises morais, políticas e narrativas.
Uma cidade sob pressão constante
Eddington não funciona apenas como cenário. A cidade é um organismo vivo, atravessado por tensões acumuladas, ressentimentos antigos e desconfiança generalizada. O isolamento, as restrições e o medo funcionam como combustível para conflitos que já estavam latentes.
Aos poucos, o espaço urbano vira uma panela de pressão. Conversas viram confrontos, opiniões se cristalizam e qualquer tentativa de mediação soa como ataque. O filme sugere que o colapso não acontece de repente — ele é cultivado no cotidiano.
Autoridade em crise e o desejo de controle
Joe Cross, o xerife interpretado por Joaquin Phoenix, personifica a fragilidade da autoridade quando ela perde legitimidade social. Consumido pela necessidade de controle e reconhecimento, ele reage mais por impulso do que por estratégia.
O personagem não é um tirano clássico, mas alguém incapaz de lidar com a ambiguidade. Em um ambiente onde ninguém confia em ninguém, sua figura de poder se torna mais um foco de instabilidade do que de proteção.
Política, imagem e disputa por narrativa
Ted Garcia, o prefeito vivido por Pedro Pascal, representa o poder institucional tentando sobreviver em meio ao caos. Carismático e calculista, ele entende que governar, naquele contexto, significa administrar percepções tanto quanto decisões.
Louise, interpretada por Emma Stone, surge como peça-chave nesse tabuleiro. Ambígua e performática, ela simboliza o poder da imagem e da opinião. Suas ações levantam uma questão central do filme: quando a narrativa se sobrepõe aos fatos, quem realmente influencia o comportamento coletivo?
Polarização como identidade
Um dos temas mais inquietantes de Eddington é a transformação da polarização em identidade. Não se trata mais de discordar, mas de pertencer a um lado. A cidade se divide em bolhas, cada uma com sua própria versão da realidade.
O filme mostra como essa fragmentação mina qualquer possibilidade de diálogo. A busca por pertencimento supera a busca por verdade, e a convivência se torna quase impossível quando ouvir o outro passa a ser visto como traição.
Violência que nasce antes do confronto
Ari Aster constrói a tensão de forma gradual. A violência, quando surge, não parece um ponto fora da curva, mas consequência lógica de um ambiente saturado. Antes do primeiro ato extremo, já houve inúmeras microagressões, silêncios cúmplices e discursos inflamados.
O filme deixa claro que o perigo não está apenas no ato final, mas no processo que o torna aceitável. A normalização do extremo acontece muito antes de qualquer explosão física.
Humor ácido e desconforto calculado
Mesmo tratando de temas pesados, Eddington utiliza a sátira como ferramenta narrativa. O humor é seco, incômodo e frequentemente interrompido por momentos de brutalidade inesperada.
Essa escolha reforça o caráter perturbador do filme. O riso surge travado, seguido de desconforto, lembrando o espectador de que o absurdo retratado não está tão distante da realidade recente.
Um espelho pouco gentil do presente
Exibido em Cannes 2024, Eddington dividiu opiniões justamente por se recusar a oferecer respostas ou conforto. O filme não toma partido claro, nem entrega soluções fáceis. Ele observa, expõe e se afasta.
Ao fazer isso, Ari Aster propõe um espelho duro: o caos não nasce apenas de líderes ruins ou eventos extremos, mas da soma de escolhas cotidianas, medos não enfrentados e diálogos interrompidos.
