No filme Close (2022), o belga Lukas Dhont usa a câmera como instrumento de ternura e confronto, expondo a beleza frágil da amizade entre dois meninos e os abismos que se abrem quando a sociedade decide onde termina o afeto e começa a ameaça.
Verão, campos e um abraço sem medo
Na quietude de um vilarejo europeu, Léo e Rémi vivem a plenitude de uma amizade que ainda não foi contaminada por julgamentos. Correm pelos campos, dormem juntos, tocam-se com naturalidade — tudo isso sob uma lente que enxerga, mas não julga. A infância, aqui, é o espaço da liberdade e da linguagem não verbal. A câmera se aproxima tanto que quase sentimos o calor dos abraços, os sorrisos cúmplices, os gestos de um afeto genuíno.
Essa fase inicial, marcada por uma atmosfera quase onírica, carrega o peso daquilo que virá. Não há trilha grandiosa, apenas o som da natureza e dos corpos em movimento — o cinema de Dhont é de presença, e Frank van den Eeden fotografa esse mundo com uma delicadeza que amplia o que não é dito. A infância é feita de silêncio e sensação. E é nesse silêncio que se instala o primeiro ruído: a escola.
Quando o mundo começa a exigir explicações
O retorno às aulas traz com ele o olhar dos outros. Um comentário de colegas sobre a proximidade dos meninos inicia uma quebra imperceptível, mas irreversível. Léo, ainda tentando entender o que significa “ser normal”, começa a se afastar. A escolha não é racional, é reflexo — um gesto que nasce da necessidade de ser aceito, mesmo que ao custo do que é mais íntimo.
A dor da separação é sentida antes de ser compreendida. Rémi, em sua doçura, parece não saber como reagir. Léo, por sua vez, tenta justificar para si mesmo o corte, mesmo que isso o leve a um deserto emocional. Não há violência gráfica, mas há uma devastação que se instala devagar. A câmera continua próxima — mas agora, o close revela o desconforto, o medo, o arrependimento que ainda não tem nome.
A tragédia e o vazio que ela deixa
O desaparecimento repentino de Rémi — cujo destino se revela como um soco — transforma o filme. Close se torna, então, um estudo sobre o luto, a culpa e o silêncio que consomem por dentro. Léo, agora sozinho, caminha por um mundo em que cada gesto não feito e cada palavra não dita tornam-se fantasmas. A perda é vivida de forma contida, mas não menos dolorosa.
Nesse ponto, Eden Dambrine entrega uma performance rara: um menino em pedaços, tentando continuar. Não há grandes discursos nem redenções. Apenas a verdade crua de um afeto que foi rejeitado e agora não pode mais ser reparado. O sofrimento é retratado com uma sensibilidade que evita o melodrama e escolhe, ao invés disso, a sutileza. É nesse gesto contido que o filme encontra sua potência.
Um cinema que respira dor e beleza
Lukas Dhont, ao lado do corroteirista Angelo Tijssens, constrói um cinema que não quer ensinar lições, mas provocar escuta. É uma obra que se permite fragilidade, que confia no olhar e no silêncio. A edição é suave, quase imperceptível, como se os minutos escorressem como lembranças. A trilha, quando surge, é minimalista. Tudo nesse filme convida à empatia — um convite que ecoa muito além da tela.
A estética de Close não está a serviço da beleza pela beleza. Cada escolha — do close sufocante à luz natural — dialoga com o estado emocional dos personagens. O que vemos é um corpo tentando compreender o que sente. Um menino que aprendeu, da pior forma, que expressar carinho pode ter consequências irreversíveis. E ainda assim, há esperança: não de reparação, mas de compreensão.
Por que este filme importa agora
Em uma Europa contemporânea marcada por divisões e pelo endurecimento dos laços sociais, Close toca numa ferida que raramente é exposta: a repressão emocional masculina desde a infância. Léo e Rémi não são metáforas — são meninos reais, que poderiam estar em qualquer escola, em qualquer país. E o que lhes acontece é resultado de uma cultura que ainda exige rigidez de meninos e silencia gestos de afeto.
A obra, embora situada em um microcosmo europeu, reverbera globalmente. Ao trazer à tona a intimidade entre meninos com sensibilidade e sem juízo moral, Dhont rompe com tabus antigos e abre espaço para uma nova educação emocional. Não é apenas sobre Léo e Rémi — é sobre todos que um dia se sentiram culpados por amar de forma “errada”. É sobre o custo de se encaixar. É sobre o que perdemos quando silenciamos.
Close não oferece respostas fáceis. Mas aponta um caminho: o da escuta, da sensibilidade, da coragem de permitir que o afeto exista sem a necessidade de rotular. Em tempos de crescente distanciamento afetivo, o filme propõe um retorno ao essencial — ao toque, ao olhar, ao cuidado com o outro.
Mais do que uma narrativa sobre perda, Close é um lembrete doloroso de que a empatia precisa ser cultivada desde cedo. E que quando ela é sufocada, o que resta é um vazio difícil de preencher. Um cinema necessário, feito para sentir — e para lembrar.
