O longa-metragem espanhol Legado nos Ossos (2019), dirigido por Fernando González Molina, dá continuidade à investigação iniciada em O Guardião Invisível e adapta o segundo romance da Trilogia do Baztán, de Dolores Redondo. Disponível internacionalmente pela Netflix, o filme acompanha Amaia Salazar, interpretada por Marta Etura, enquanto novos suicídios, uma palavra ligada ao folclore basco e a descoberta de restos mortais levam a policial a investigar acontecimentos relacionados à própria família. A narrativa amplia o suspense policial do primeiro capítulo e incorpora elementos de trauma, maternidade, memória e crenças tradicionais.
Uma investigação que deixa de ser apenas policial
A história começa aproximadamente um ano depois dos acontecimentos de O Guardião Invisível. Amaia precisa acompanhar o julgamento de Jasón Medina, acusado de estupro e assassinato, mas o caso toma outro rumo quando ele tira a própria vida antes da audiência e deixa como única pista a palavra “Tarttalo”. Paralelamente, Amaia dá à luz Ibai, seu primeiro filho, acrescentando uma dimensão familiar à personagem.
Quando retorna ao trabalho, a investigadora encontra uma sequência de acontecimentos que parece estar conectada: outros criminosos cometem suicídio, a mesma palavra volta a aparecer, uma igreja é profanada e restos mortais de uma criança são encontrados. A investigação passa, então, a cruzar elementos policiais, religiosos e familiares. O roteiro de Luiso Berdejo utiliza essas conexões para deslocar gradualmente o foco da pergunta “quem está cometendo os crimes?” para outra questão: qual é a origem dos acontecimentos que continuam se repetindo?
Marta Etura conduz a transformação de Amaia
Marta Etura permanece no centro da narrativa como Amaia Salazar, personagem construída a partir da combinação entre racionalidade profissional e conflitos relacionados à infância. A investigação exige que ela examine evidências, documentos e informações genéticas, mas o avanço do caso também a obriga a confrontar lembranças e segredos relacionados à mãe, Rosario, interpretada por Susi Sánchez.
A maternidade modifica a posição da protagonista dentro da história. Amaia deixa de ser somente a filha afetada pelo comportamento de Rosario e passa a ocupar o papel de mãe responsável pela proteção de Ibai. Essa mudança estabelece um contraste entre duas formas de relação familiar. Enquanto Rosario está associada à violência e ao controle, Amaia tenta construir para o próprio filho uma experiência diferente daquela que recebeu. Jonan Etxaide, vivido por Carlos Librado “Nene”, funciona como um dos principais pontos de apoio à investigação, ajudando a preservar uma perspectiva profissional diante de um caso cada vez mais pessoal.
Família, memória e trauma são incorporados ao mistério
A descoberta de que Amaia tinha uma irmã gêmea que morreu ainda bebê altera a compreensão sobre sua própria história. Os restos encontrados deixam de ser apenas uma evidência criminal e passam a representar uma parte desconhecida da trajetória da protagonista. A utilização de informações genéticas reforça esse aspecto, estabelecendo uma relação entre investigação científica e memória familiar.
O filme também trabalha a ideia de que acontecimentos não resolvidos podem permanecer presentes por meio de comportamentos, segredos e relações entre gerações. Rosario ocupa posição central nesse processo, enquanto Tía Engrasi, interpretada por Itziar Aizpuru, representa outra dimensão da herança familiar, ligada à memória e à proteção. Dessa forma, a narrativa diferencia aquilo que uma família transmite e pode preservar daquilo que precisa ser interrompido para evitar a repetição da violência.
Folclore basco amplia a dimensão sobrenatural
A palavra “Tarttalo” conecta diferentes etapas da investigação e introduz diretamente o folclore basco na estrutura do suspense. Na tradição popular, Tarttalo é uma figura associada a um gigante de um olho, frequentemente relacionada ao imaginário do ciclope e a histórias sobre seres que devoram pessoas. No filme, o termo funciona simultaneamente como pista narrativa, símbolo e elemento de ameaça.
A direção de Fernando González Molina utiliza chuva, floresta, rios, construções antigas e ambientes pouco iluminados para aproximar a investigação do universo mítico de Baztán. Entretanto, a presença do folclore não elimina a dimensão racional da investigação. DNA, autópsias, documentos e entrevistas continuam sendo ferramentas utilizadas por Amaia para estabelecer conexões entre os acontecimentos. O contraste permite que a mitologia funcione também como expressão cultural dos medos e das crenças presentes na comunidade, sem depender exclusivamente da confirmação literal de seus elementos sobrenaturais.
Entre herança e ruptura de ciclos
O título Legado nos Ossos sintetiza uma das principais ideias do segundo capítulo. Os ossos funcionam tanto como evidência física quanto como representação de uma história que permaneceu escondida. A família tentou manter determinados acontecimentos no passado, mas os vestígios acabam retornando ao presente por meio da investigação de Amaia.
A chegada de Ibai cria o contraponto entre passado e futuro. A irmã que Amaia não pôde proteger e o filho que agora depende dela estabelecem uma relação entre duas gerações e colocam a protagonista diante da possibilidade de interromper um padrão de violência. Nesse sentido, o filme aborda proteção da infância, responsabilização diante de pessoas vulneráveis e os efeitos de relações familiares marcadas por abuso e manipulação. A investigação deixa de servir apenas para solucionar crimes e passa a representar também uma tentativa de compreender o passado para impedir que determinadas experiências sejam transmitidas novamente.
