Lançado em 2022, As Linhas Tortas de Deus (Los renglones torcidos de Dios) acompanha Alice Gould, interpretada por Bárbara Lennie, uma investigadora particular que entra em uma instituição psiquiátrica para apurar a morte de um paciente. Dirigido por Oriol Paulo e baseado no romance de Torcuato Luca de Tena, o longa ambientado no final dos anos 1970 constrói seu suspense a partir da dúvida sobre a própria identidade da protagonista: ela está realmente infiltrada ou acredita ser uma investigadora por causa de uma realidade construída por sua mente?
Uma investigação em que a investigadora também é investigada
Alice Gould chega ao hospital afirmando que foi internada voluntariamente para investigar a morte de Damián García del Olmo. Segundo sua versão, ela teria combinado com o marido a criação de uma documentação psiquiátrica e a simulação de paranoia para conseguir acesso à instituição. A estratégia parece definida até que o diretor Samuel Alvar apresenta uma versão completamente diferente: Alice seria uma paciente que teria tentado envenenar o próprio marido e construído posteriormente uma narrativa na qual desempenharia o papel de detetive.
O roteiro estabelece, assim, duas investigações simultâneas. Alice procura descobrir o que aconteceu dentro do hospital, enquanto os médicos precisam determinar quem ela realmente é e se sua interpretação dos acontecimentos corresponde aos fatos. A estrutura permite que informações aparentemente definitivas sejam posteriormente reinterpretadas, colocando o espectador na mesma posição de incerteza ocupada pela protagonista.
Alice Gould e o poder da convicção
Bárbara Lennie interpreta Alice como uma personagem articulada, observadora e capaz de estabelecer relações entre diferentes informações. Sua segurança influencia tanto os personagens ao seu redor quanto o próprio público. Quanto mais ela identifica contradições e apresenta explicações para acontecimentos aparentemente desconexos, mais difícil se torna separar sua capacidade de raciocínio da possibilidade de que ela esteja interpretando a realidade de maneira equivocada.
Essa ambiguidade é central para a construção da personagem. Alice não precisa ser apresentada simplesmente como alguém que mente para que sua versão seja questionada. O filme trabalha também com a possibilidade de uma pessoa acreditar sinceramente em uma narrativa incorreta. Dessa forma, inteligência e capacidade argumentativa deixam de funcionar como provas de verdade. Uma pessoa pode construir uma explicação coerente e, ainda assim, partir de uma premissa falsa.
O hospital e a disputa pela definição da realidade
A instituição psiquiátrica funciona como um espaço de controle. Depois de sua entrada, Alice passa a ter sua rotina, seus objetos, sua circulação e seu comportamento submetidos às regras do hospital. Isso cria uma situação em que sua própria tentativa de afirmar que está saudável pode ser interpretada pelos outros como parte do quadro que justificaria sua permanência.
Samuel Alvar representa o outro lado desse conflito. Como diretor, ele possui autoridade institucional e acesso aos registros médicos que sustentam sua interpretação sobre Alice. O confronto entre os dois não se resume, portanto, à oposição entre paciente e médico. O filme coloca em disputa diferentes formas de estabelecer o que é verdadeiro: de um lado, memória, experiência e raciocínio; do outro, documentação, diagnóstico e autoridade profissional. Nenhum desses elementos é apresentado isoladamente como garantia absoluta.
Saúde mental, identidade e limites da interpretação
A representação dos pacientes contribui para afastar uma divisão simplista entre pessoas consideradas “normais” e aquelas diagnosticadas com transtornos mentais. Personagens como Ignacio Urquieta possuem relações, pensamentos, medos e características próprias que não se resumem às suas condições clínicas. A presença deles amplia a discussão sobre identidade e mostra como um diagnóstico pode fazer parte da história de alguém sem representar a totalidade dessa pessoa.
Ao mesmo tempo, é necessário considerar o contexto do filme. As Linhas Tortas de Deus utiliza a psiquiatria como elemento de um thriller psicológico ambientado no final dos anos 1970. Procedimentos, relações de poder e comportamentos apresentados na narrativa pertencem ao universo ficcional e histórico da obra, não devendo ser tratados como representação geral da psiquiatria ou como descrição de pessoas com transtornos mentais. Nesse sentido, o filme funciona melhor como uma reflexão sobre percepção, autoridade e vulnerabilidade do que como retrato documental da saúde mental.
O final e a força da dúvida
No desfecho, quando a versão de Alice parece ganhar força e sua saída da instituição se aproxima, Alvar apresenta o Dr. Donadío. A presença do homem provoca uma ruptura na narrativa da protagonista porque ele corresponde à figura que Alice associava a García del Olmo, elemento fundamental de sua investigação. A revelação não apenas acrescenta uma informação ao caso: ela obriga o espectador a reconsiderar a própria trajetória de Alice e as conclusões formadas ao longo do filme.
A conclusão não depende apenas de responder se Alice mentiu ou disse a verdade. A questão mais relevante é saber como uma pessoa determina que sua própria percepção corresponde à realidade. Memórias podem falhar, documentos podem conter informações incorretas ou ser manipulados, e argumentos coerentes não garantem que a premissa esteja correta. Ao preservar essa tensão até o fim, Oriol Paulo transforma o mistério em uma discussão sobre evidência, convicção e capacidade de revisar uma hipótese. As Linhas Tortas de Deus termina, assim, não apenas com uma dúvida sobre Alice, mas com uma pergunta dirigida ao próprio espectador: quanta certeza é necessária antes de admitirmos que podemos estar interpretando os fatos de maneira equivocada?
