Lançado em 2018, Mid90s acompanha um momento específico — e universal — da vida: o instante em que crescer deixa de ser algo guiado e passa a ser improvisado. A história segue Stevie, um garoto de 13 anos que encontra nas ruas e no skate um espaço de pertencimento que sua própria casa não consegue oferecer.
Entre casa e rua
A vida doméstica de Stevie é marcada por tensão e distância emocional. Seu irmão mais velho, Ian, interpretado por Lucas Hedges, representa a agressividade e a instabilidade que tornam o ambiente familiar difícil de sustentar.
Já a mãe, vivida por Katherine Waterston, tenta manter algum equilíbrio, mas não consegue preencher o vazio emocional do protagonista. É nesse espaço de ausência que Stevie começa a procurar outro lugar para existir.
O skate como porta de entrada
Quando descobre o grupo de skatistas, Stevie encontra algo que vai além de diversão. O skate se torna linguagem, conexão e identidade. Não importa o nível de habilidade — o que importa é fazer parte.
Esse universo funciona como um rito de passagem. Entre quedas, risadas e desafios, ele aprende códigos sociais, testa limites e começa a construir quem ele é. A rua vira escola, mesmo sem regras claras.
Pertencimento e influência
O grupo de amigos oferece acolhimento, mas também carrega riscos. A necessidade de ser aceito leva Stevie a se expor a situações que exigem maturidade que ele ainda está construindo.
O filme não romantiza esse processo. Mostra que pertencimento pode ser tanto abrigo quanto pressão. Crescer em grupo significa absorver influências — boas e ruins — e lidar com as consequências disso.
Silêncios que dizem muito
Stevie, interpretado por Sunny Suljic, é um protagonista de poucas palavras. Sua jornada é construída mais por gestos, olhares e atitudes do que por explicações diretas.
Esse silêncio reforça a proposta do filme: a adolescência nem sempre é verbalizada. Muitas vezes, ela é sentida, confusa e difícil de traduzir. E é justamente isso que torna a experiência tão real.
Estética de memória
A direção de Jonah Hill aposta em uma linguagem visual que remete aos anos 90, com uso de formato 4:3 e textura que lembra gravações em VHS.
Essa escolha não é apenas estética — ela cria sensação de memória. Como se o espectador estivesse revisitando uma fase da vida, com todas as imperfeições, ruídos e fragmentos que isso envolve.
Crescer sem manual
O filme evita respostas fáceis. Não há grandes viradas ou lições explícitas. O que existe é um processo — às vezes bonito, às vezes duro — de formação.
Stevie não encontra soluções prontas. Ele encontra experiências. E, a partir delas, começa a entender seu lugar no mundo, ainda que de forma incompleta.
