Lançado em 2020, Oferenda à Tempestade (Ofrenda a la tormenta) é o terceiro e último filme da Trilogia do Baztán, dirigida por Fernando González Molina. Baseado no romance de Dolores Redondo, o longa acompanha Amaia Salazar, interpretada por Marta Etura, enquanto a investigação de mortes suspeitas de bebês a conduz às estruturas que sustentaram os mistérios do vale por gerações.
Uma investigação que muda de escala
Depois dos acontecimentos de Legado nos Ossos, Amaia continua investigando mesmo diante do desaparecimento de sua mãe, Rosario. O surgimento de um novo caso envolvendo a morte de um bebê leva a inspetora a encontrar semelhanças com outros episódios e a considerar que os acontecimentos não são casos isolados. A investigação passa a conectar famílias, profissionais, instituições e pessoas influentes.
Essa mudança amplia o conflito estabelecido nos filmes anteriores. Em vez de procurar somente quem cometeu os crimes, Amaia precisa compreender quem permitiu que eles continuassem acontecendo. O suspense passa, portanto, da identificação de um indivíduo para a investigação de uma estrutura sustentada por silêncio, proteção e relações de poder.
Amaia Salazar entre trauma e responsabilidade
Marta Etura retorna como Amaia Salazar, personagem que chega ao último capítulo carregando as consequências dos acontecimentos anteriores. O caso do Basajaun, a relação com Rosario, os riscos enfrentados por seu filho e as descobertas sobre a própria família fazem parte da trajetória acumulada ao longo da trilogia.
A maternidade modifica a posição da personagem diante desse passado. Amaia não pode alterar aquilo que recebeu da própria família, mas passa a decidir o que será transmitido ao filho. Essa perspectiva aproxima a investigação policial de uma questão geracional: compreender uma história não significa necessariamente reproduzi-la. O filme utiliza essa relação para discutir a possibilidade de interromper ciclos de violência e trauma.
O poder institucional como parte do mistério
Javier Markina, interpretado por Leonardo Sbaraglia, ocupa uma posição relevante justamente por representar uma instituição associada à justiça. A ligação do personagem com a estrutura responsável pelos rituais cria um contraste entre a autoridade que deveria contribuir para a responsabilização e a possibilidade de utilização dessa mesma legitimidade para proteger interesses ocultos.
Essa construção desloca o conceito de ameaça. O perigo não está necessariamente em figuras que aparentam ser criminosas, mas também pode estar em pessoas integradas à sociedade, com cargos, prestígio e autoridade. O roteiro utiliza essa inversão para abordar a corrupção institucional como um problema que ultrapassa a ação individual: quando uma estrutura criada para impedir abusos passa a protegê-los, sua função original é comprometida.
Mitologia, símbolos e violência
A mitologia basca continua integrada à narrativa por meio de figuras como Inguma e do imaginário relacionado à floresta. O filme mantém o equilíbrio entre a investigação baseada em evidências e uma linguagem simbólica formada por rituais, crenças e histórias antigas. A mitologia, nesse contexto, não substitui a investigação policial, mas amplia as possibilidades de interpretação dos acontecimentos.
As mortes de bebês ocupam o centro dessa dimensão simbólica. A criança representa continuidade e futuro, enquanto o sacrifício transforma uma vida em instrumento para obtenção de benefícios por terceiros. O próprio conceito de oferenda é colocado em questão: quando alguém entrega a vida de outra pessoa em busca de proteção, prosperidade ou poder, a ação deixa de representar um sacrifício voluntário e passa a configurar violência.
Direção e encerramento da trilogia
Fernando González Molina mantém a combinação entre thriller policial, drama familiar, mistério, terror folclórico e suspense psicológico. A fotografia de Xavi Giménez utiliza florestas, chuva, ambientes escuros e interiores fechados para preservar a atmosfera estabelecida nos capítulos anteriores, enquanto a narrativa amplia a investigação para além de uma cena de crime e passa a examinar uma rede de segredos.
Como encerramento, Oferenda à Tempestade completa a progressão iniciada por O Guardião Invisível e continuada por Legado nos Ossos. O primeiro filme concentra-se na investigação dos crimes; o segundo amplia a relação com a família e o passado; e o terceiro procura compreender a estrutura que permitiu a continuidade dos acontecimentos. O resultado é uma conclusão voltada menos para um único culpado e mais para as relações entre poder, silêncio, tradição, responsabilidade e trauma geracional.
