Há histórias que o tempo tenta apagar, mas que o cinema, por sorte, insiste em resgatar. Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil (2016), documentário dirigido por Belisario França, expõe um capítulo sombrio e pouco conhecido da história nacional: a existência de colônias de trabalho escravo infantil ligadas a simpatizantes do nazismo no interior paulista dos anos 1930.
O ponto de partida é surpreendente: em 1998, durante uma aula de história, um professor encontra tijolos marcados com suásticas numa antiga fazenda no município de Campina do Monte Alegre, São Paulo. Essa pista leva à descoberta de uma experiência macabra: cerca de 50 meninos negros e mulatos foram retirados de orfanatos públicos do Rio de Janeiro e enviados para a Fazenda Santa Albertina, onde perderam seus nomes e foram reduzidos a números gravados em seus uniformes. Um deles, o Menino 23, Aloísio Silva, sobreviveu para contar esse passado silenciado.
Narrado com delicadeza e gravidade, o documentário costura entrevistas com os dois sobreviventes identificados, imagens da fazenda, fotos de época e documentos inéditos revelados pela pesquisa de Sidney Aguilar Filho. Não há dramatizações forçadas: há respeito ao silêncio das vítimas e à força dos relatos, que falam de fome, abuso e trabalho forçado sob a vigilância de uma elite paulista fascinada pela ideologia eugênica de pureza racial importada da Alemanha nazista.
A força do filme reside menos no choque explícito e mais no desconforto ético que provoca. Como essa história pôde permanecer esquecida? Qual o papel da elite intelectual e agrária na sustentação de um projeto racista, no próprio solo brasileiro? A investigação não acusa sem provas, ela expõe dados, ligações políticas, crenças eugenistas, numa costura que mistura o horror íntimo das infâncias roubadas com a frieza de um projeto de poder branco e autoritário.
A montagem respeita o ritmo da revelação: cada novo dado histórico amplia o quadro da tragédia e aponta para questões contemporâneas como o racismo estrutural, trabalho infantil, desigualdade social. O filme transforma o passado em advertência viva: a memória, quando esquecida, permite a repetição.
Não à toa, Menino 23 foi reconhecido internacionalmente e chegou à pré-seleção do Oscar 2017 de documentário. Sua importância, no entanto, vai além dos prêmios: é ferramenta essencial de educação em direitos humanos, frequentemente exibida em escolas, universidades e espaços de debate social.
Mais do que denúncia, o documentário é reparação simbólica. Dá rosto, voz e dignidade a vidas que a história oficial quis apagar. Ao permitir que Aloísio e Argemiro contem suas memórias, o filme devolve humanidade às vítimas e convoca o espectador à responsabilidade moral de não permitir que o silêncio se repita.
Menino 23 não é fácil de assistir e nem deveria ser. Mas é necessário sendo uma obra que se inscreve no esforço de reconstrução histórica do Brasil, num tempo em que lembrar é também lutar.
