Poucos filmes recentes conseguiram provocar tanto desconforto e reflexão quanto Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava (2017), documentário experimental de Fernanda Pessoa. Sem narração, sem entrevistas, sem explicações didáticas, apenas imagens e sons extraídos da pornochanchada dos anos 1970 — o filme desvela uma história subterrânea do Brasil sob ditadura militar, escondida sob o manto do entretenimento barato e popular.
O resultado é perturbador: entre corpos nus, piadas fáceis, situações grotescas e violência simbólica, irrompem sem aviso os reflexos de um país marcado pela censura, desigualdade e repressão. Como espectador, você ri mas logo percebe que está rindo da tragédia disfarçada de comédia. A pornochanchada, desdenhada por décadas como cinema menor, emerge aqui como um espelho distorcido, porém fiel, de um Brasil autoritário que tudo queria esconder e que tudo, de certo modo, revelou.
Pornochanchada: política involuntária?
Fernanda Pessoa articula uma montagem precisa (vencedora do Prêmio Guarani) para mostrar que esses filmes, mesmo sem intenção direta de denúncia, escancaravam o “não-dito” do Brasil da época: a miséria rural, o estupro conjugal naturalizado, a homofobia, o racismo estrutural, o medo difuso da polícia. Estavam lá, em meio ao erotismo cômico, as fraturas sociais que o cinema oficial ignorava ou maquiava.
A montagem de Luiz Cruz transforma essas imagens dispersas em discurso. O simples ato de justapor cenas eróticas com flashes de repressão ou desigualdade social já basta para gerar tensão crítica — sem precisar de palavras. A censura, que vigiava o conteúdo político explícito, não impediu que o país real invadisse o imaginário popular por rotas tortas, quase inconscientes.
Entre crítica e incômodo
A potência do filme reside nesse paradoxo: para falar da história esquecida do Brasil, é preciso mergulhar justamente no que o “bom gosto” acadêmico desprezava. A pornochanchada vira documento histórico; seu universo machista, sexista e raso é aqui ressignificado como material de análise política.
Esse deslocamento incomoda o público e é para incomodar. O espectador é obrigado a enfrentar o papel do cinema de massa na construção de nossa memória cultural. Afinal, quem disse que só o cinema de arte fala sobre o país? O “baixo cinema” também viu, riu, sofreu e registrou.
Recepção e legado
Premiado em festivais internacionais como IndieLisboa e Pachamama, Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava dividiu a crítica brasileira: há quem celebre sua inteligência e ousadia; há quem se irrite com a ambiguidade moral do material de origem. Mas é justamente esse desconforto que faz do filme uma obra importante: ele tensiona o limite entre cultura popular e denúncia política, revelando o quanto o riso fácil pode conter verdades duras.
Sem narrador, sem explicações, o filme exige do espectador o papel de analista, ele mesmo deve ligar as imagens, reconstruir o sentido, repensar o passado. Essa aposta na autonomia crítica é seu maior trunfo e seu maior risco.
Um espelho fragmentado do Brasil
Ao final, Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava não oferece sínteses fáceis. Mas deixa claro que a pornochanchada, vista de novo, fala de repressão, desejo, desigualdade e medo com mais força do que jamais imaginou. Um cinema tido como menor se revela um arquivo essencial para entender o Brasil da ditadura, e talvez, o Brasil de hoje.
Em tempos de disputa pela memória histórica, este documentário é uma peça rara: resgata um gênero renegado para dizer, sem palavras, que o país também se conta nos seus cantos esquecidos.
