Inspirada no filme O Auto da Boa Mentira, a série Histórias Quase Verdadeiras (2023) revisita a tradição oral nordestina por meio de contos leves e cheios de graça. Com direção de José Eduardo Belmonte e trechos do próprio Suassuna, os episódios misturam humor, melancolia e brasilidade — criando um mosaico afetivo sobre o valor simbólico da mentira que aproxima.
Até onde uma mentira pode ser um ato de invenção… e resistência?
A minissérie Histórias Quase Verdadeiras, exibida em janeiro de 2023 pela TV Globo, retoma o espírito inventivo de Ariano Suassuna ao valorizar a mentira como forma de resistência simbólica. Não se trata da falsidade que corrompe, mas da imaginação que encanta, desafia a rigidez e encontra beleza nas pequenas farsas do cotidiano. Em tempos de excesso de verdades cruas e dados duros, o riso torna-se uma forma de cura — e de preservação cultural.
Baseada em O Auto da Boa Mentira (2021), a série conta com quatro episódios curtos, que adaptam causos inspirados nos escritos e entrevistas do autor para o formato televisivo. Os personagens vivem situações comuns — ser confundido com alguém, esconder verdades incômodas, sonhar alto —, mas sob o olhar poético de Suassuna, esses eventos ganham contorno de fábula. O riso aqui não é escapatório, mas revelador.v
Mentiras que nos contam verdades
Em cada episódio, uma mentira diferente estrutura a trama. “O Farsante”, por exemplo, mostra Helder (Leandro Hassum) sendo confundido com um comediante famoso e decidindo levar a farsa adiante — com resultados cômicos e singelos. Em “Vidente”, um filho tenta se reconciliar com o passado da mãe por meio de previsões místicas. Já em “Mentira ou Consequência”, a jovem Lorena (Cacá Ottoni) fantasia uma vida de sucesso como válvula de escape para sua invisibilidade no ambiente de trabalho.
O inédito “Verdades no Ar” traz duas amigas que, durante uma viagem de avião, revelam segredos íntimos que sempre esconderam uma da outra. Em comum, todos os episódios revelam que as mentiras que contamos — ou aceitamos ouvir — carregam um fundo de verdade emocional. O que é omitido ou inventado diz muito sobre os nossos medos, desejos e modos de pertencer ao mundo. Suassuna, com sua graça filosófica, já dizia: a mentira boa é aquela que revela.
A oralidade como patrimônio narrativo
A série preserva o estilo de contar histórias tão característico da obra de Suassuna. A oralidade — com seus ritmos, pausas e trejeitos — é um dos pilares da narrativa. Trechos com imagens do próprio autor costuram os episódios, servindo como respiros reflexivos e pontos de conexão entre o ficcional e o real. Sua voz e suas ideias funcionam como guia afetivo, lembrando o espectador de que, por trás de cada enredo, há uma brasilidade pulsante.
Essa valorização da fala como forma de memória torna Histórias Quase Verdadeiras mais do que uma série de comédia. Ela se configura como um registro contemporâneo da tradição oral popular. Em tempos digitais, onde a comunicação é rápida e descartável, o resgate do “causo” funciona como um antídoto cultural — uma maneira de reafirmar a importância do tempo da escuta, da imaginação e do encantamento.
Humor com identidade e sensibilidade
Embora o humor seja o principal condutor da série, ele é marcado por uma sensibilidade que evita o exagero ou a caricatura fácil. Os roteiros de João Falcão, Tatiana Maciel e Célio Porto equilibram graça e melancolia, oferecendo uma comédia que diverte sem abandonar a humanidade dos personagens. Cada conto é construído com leveza, mas também com o cuidado de deixar uma reflexão suspensa no ar — como toda boa história popular.
A direção de Belmonte adota uma estética intimista e realista, permitindo que o riso surja de situações críveis e não apenas de gags. O elenco, que inclui nomes como Hassum, Nanda Costa, Rocco Pitanga, Renato Góes e Zezé Polessa, dá corpo e textura a personagens que poderiam ser nossos vizinhos, colegas ou familiares. O resultado é um humor enraizado na experiência brasileira, que provoca o riso pela identificação, não pelo exagero.
Suassuna como farol da cultura popular
A presença simbólica de Ariano Suassuna atravessa a série como fio condutor e inspiração poética. Seu pensamento sobre a “boa mentira” — aquela que inventa, embeleza e protege — é reinterpretado como uma defesa da imaginação contra a dureza da realidade. Ele surge em imagens de arquivo, trechos de entrevistas e falas que foram cuidadosamente inseridas nas tramas, não como figura decorativa, mas como presença viva que ancora a narrativa.
Nesse gesto, a série também cumpre um papel pedagógico: apresentar a nova geração ao pensamento de um dos maiores autores da literatura brasileira recente. Sem didatismo, Histórias Quase Verdadeiras convida o público a conhecer e valorizar um modo de pensar o Brasil que foge da lógica urbana, globalizada e ansiosa — e se ancora no tempo do riso, da fala demorada e da fábula reveladora.
Cultura popular como caminho para pertencimento
Mais do que uma simples adaptação televisiva, Histórias Quase Verdadeiras se insere no esforço maior de recuperar, por meio da cultura, um senso de pertencimento. Ao retratar personagens nordestinos, urbanos ou interioranos, sonhadores ou desiludidos, a série afirma que o Brasil é feito de muitas verdades e muitas mentiras — e que há beleza nisso. Ao rir de si, o país também se compreende melhor.
Em tempos de discursos rígidos e polarizações exaustivas, lembrar que a imaginação ainda é um recurso possível — e necessário — torna-se um ato de resistência sutil. A boa mentira, neste contexto, não é falsidade, mas linguagem simbólica. É o jeito que o Brasil encontrou para rir da dor, reinventar a escassez e transformar o cotidiano em história compartilhada.
