Lançado em 2022, Fantasmas do Passado (Master) é o primeiro longa-metragem dirigido por Mariama Diallo. Ambientado na fictícia Universidade Ancaster, nos Estados Unidos, o filme acompanha Gail Bishop, primeira mulher negra a ocupar o cargo de “Master” em uma residência universitária, e Jasmine Moore, uma caloura negra que começa a enfrentar episódios de racismo e isolamento. Ao combinar terror psicológico, drama e mistério, a produção transforma o passado de uma instituição acadêmica em elemento central para discutir pertencimento, poder e permanência.
Uma universidade onde o passado permanece presente
A narrativa se desenvolve em Ancaster, universidade marcada por tradição, prestígio e uma história que interfere diretamente na experiência de seus personagens. Gail Bishop assume uma posição de autoridade dentro desse ambiente justamente quando a instituição busca projetar uma imagem de mudança. Ao mesmo tempo, Jasmine chega como estudante e passa a ocupar um espaço que já carrega as marcas de outra experiência de exclusão.
O título original, Master, concentra parte importante dessa contradição. A palavra remete simultaneamente à autoridade acadêmica e à figura historicamente associada ao domínio e à hierarquia. A própria experiência de Mariama Diallo em Yale serviu de referência para a construção do universo do filme, especialmente a partir da utilização do termo “Master” em uma residência universitária durante sua época de estudante. A escolha permite que o cargo de Gail seja analisado não apenas como conquista individual, mas também como parte de uma estrutura com longa trajetória histórica.
A direção estabelece essa relação por meio da arquitetura. Residências antigas, corredores, retratos, sinos e outros elementos do campus funcionam como extensões da memória institucional. A casa destinada a Gail, por exemplo, conserva mecanismos relacionados ao trabalho de empregados, criando uma oposição entre o título de autoridade que ela recebe e os vestígios materiais de uma ordem social anterior.
Jasmine e a experiência de entrar sem necessariamente pertencer
Jasmine Moore chega a Ancaster carregando a expectativa associada ao ingresso em uma universidade de elite. O filme parte dessa conquista para examinar uma diferença importante entre acesso e pertencimento. Entrar em uma instituição não significa necessariamente experimentar as mesmas condições de segurança, reconhecimento e participação que os demais integrantes daquele espaço.
O quarto 302 aprofunda essa questão. Jasmine descobre que Louisa Weeks, apresentada como a primeira estudante negra de Ancaster, morreu por suicídio naquele mesmo quarto décadas antes. A repetição espacial estabelece uma conexão entre duas gerações e transforma o ambiente em uma espécie de arquivo da instituição. O tempo cronológico avançou, mas determinadas questões continuam reaparecendo.
Essa repetição também sustenta o componente sobrenatural. Jasmine começa a enfrentar pesadelos, uma presença encapuzada, ameaças e sinais associados à história de Ancaster. A direção evita estabelecer de maneira definitiva onde termina a manifestação sobrenatural e começa a experiência psicológica da personagem. O resultado é uma atmosfera em que o fantasma pode ser interpretado literalmente, mas também como representação de uma memória que a instituição não conseguiu elaborar.
Racismo, ambiguidade e diferentes posições de poder
O roteiro evita concentrar a discussão racial exclusivamente em atos explícitos de violência. Comentários, olhares, situações de exclusão, suspeitas e pequenos episódios cotidianos se acumulam até formar um ambiente de insegurança. Posteriormente, a narrativa apresenta manifestações mais diretas de ameaça, incluindo um laço deixado na porta de Jasmine e uma cruz incendiada no campus.
A escolha de trabalhar inicialmente com episódios ambíguos é importante para o funcionamento do terror. Cada acontecimento isolado pode ser questionado ou interpretado de maneiras diferentes, mas a sucessão deles produz um padrão. O filme, dessa maneira, desloca a atenção do episódio individual para o ambiente no qual ele ocorre. A experiência de Jasmine não depende apenas de identificar um agressor, mas de compreender como diferentes situações podem produzir uma sensação contínua de não pertencimento.
A relação entre Jasmine, Gail e Liv Beckman acrescenta outra camada ao roteiro. As três mulheres negras ocupam posições diferentes dentro de Ancaster: estudante, professora e administradora. A identidade compartilhada não elimina diferenças de interesses, responsabilidades ou incentivos. O conflito envolvendo a avaliação acadêmica de Jasmine por Liv, seguido pelas consequências para o processo de tenure da professora, impede que o filme transforme representação racial em sinônimo automático de concordância ou solidariedade.
Gail Bishop e os limites da representação
Regina Hall interpreta Gail como uma personagem situada entre a conquista individual e as expectativas depositadas sobre uma representante institucional. Ser a primeira mulher negra a ocupar o cargo de “Master” possui importância histórica, mas a narrativa passa a investigar o que essa posição realmente permite que ela faça. O título oferece visibilidade e prestígio, mas não necessariamente concede controle suficiente sobre todos os mecanismos da universidade.
Essa diferença aparece especialmente quando Gail precisa lidar com a situação de Jasmine e com as disputas internas da instituição. Sua presença pode ser apresentada como evidência de diversidade, enquanto decisões continuam sendo tomadas por estruturas mais amplas. O filme questiona, assim, a ideia de que a presença de uma pessoa pertencente a um grupo historicamente excluído seja suficiente para comprovar a transformação de uma organização.
A oposição entre “Master” e “maid” concentra essa crítica. Gail percebe que, embora ocupe formalmente uma posição de autoridade, também parece ser convocada para administrar problemas históricos que não criou. A liderança passa a envolver não apenas decisões administrativas, mas a expectativa de representar progresso, conter conflitos e proteger a reputação de Ancaster. A experiência da personagem evidencia a diferença entre ocupar uma posição e possuir poder efetivo para modificar a estrutura que sustenta essa posição.
O fantasma como metáfora de uma instituição que não muda
A morte de Jasmine representa o ponto mais extremo dessa repetição. Louisa Weeks e Jasmine pertencem a gerações diferentes, mas suas histórias acabam conectadas pelo mesmo espaço institucional. Depois da tragédia, Ancaster continua funcionando: reuniões acontecem, processos acadêmicos prosseguem e a rotina universitária tenta recuperar sua continuidade. A instituição demonstra sua capacidade de sobreviver aos indivíduos que passam por ela.
O final reforça essa ideia quando Gail abandona Ancaster. A saída não resolve os problemas apresentados pelo filme e tampouco produz uma transformação institucional explícita. Em vez de oferecer um confronto convencional entre protagonista e monstro, Mariama Diallo encerra a história mantendo a universidade como uma estrutura que permanece depois que seus personagens deixam o local. O terror, portanto, não encontra uma criatura definitiva para derrotar.
Nesse sentido, Fantasmas do Passado utiliza a linguagem do horror para discutir memória, desigualdade e responsabilidade institucional. A obra sugere que preservar uma história exige também reconhecer seus conflitos, seus excluídos e as consequências de decisões tomadas por gerações anteriores. A presença de pessoas diferentes em posições de destaque pode representar mudança, mas o filme questiona se essa mudança alcança processos, relações de poder e formas de pertencimento. O passado se torna um fantasma quando deixa de ser apenas memória e continua determinando o presente.
