Lançado pela Netflix em 2024, Enfeitiçados (Spellbound) acompanha Ellian, uma princesa de 15 anos que precisa lidar com a transformação de seus pais, o rei Solon e a rainha Ellsmere, em criaturas monstruosas. Dirigido por Vicky Jenson e produzido pela Skydance Animation, o longa combina fantasia, aventura e musical para tratar de conflitos conjugais, responsabilidade familiar e amadurecimento. A trajetória da personagem parte da tentativa de restaurar o casamento dos pais e chega à compreensão de que uma família pode continuar existindo mesmo depois de uma separação.
Uma fantasia sobre conflito familiar
A premissa de Enfeitiçados utiliza elementos tradicionais dos contos de fadas — princesa, reino, monarcas, criaturas mágicas e uma maldição — para representar uma situação familiar. Solon e Ellsmere não se transformam em monstros por uma ameaça externa convencional: a metamorfose está relacionada ao desgaste provocado por anos de conflitos entre os dois. Para Ellian, o resultado é especialmente perturbador porque seus pais deixam de representar a segurança que ela conhecia.
A metáfora também permite que o filme apresente o conflito conjugal a partir da perspectiva da filha. Enquanto os adultos estão concentrados na própria relação, Ellian passa a administrar os efeitos da crise sobre o reino e sobre a própria família. A monstruosidade, nesse contexto, está menos associada à separação e mais à incapacidade dos personagens de lidar com o conflito sem permitir que ele afete a filha.
A história, portanto, desloca gradualmente a pergunta de “como quebrar o feitiço?” para “como essa família poderá continuar existindo?”. Essa mudança orienta a narrativa para uma discussão sobre adaptação, responsabilidade e aceitação de uma realidade diferente daquela imaginada inicialmente.
Ellian e a responsabilidade que não deveria ser dela
Rachel Zegler dá voz a uma protagonista que não possui como objetivo central encontrar um príncipe ou assumir um romance. Ellian está concentrada em recuperar os pais e restaurar a família que conhecia. Aos 15 anos, entretanto, ela já passou aproximadamente um ano administrando problemas que deveriam estar sob responsabilidade dos adultos.
A personagem precisa esconder a condição dos pais, participar da administração de Lumbria, lidar com os ministros e procurar uma solução para a transformação. Essa competência faz com que ela pareça capaz de suportar a situação, mas o filme estabelece uma diferença entre capacidade e responsabilidade. O fato de Ellian conseguir resolver problemas não significa que deveria precisar fazê-lo.
Essa questão ganha maior dimensão na música “What About Me?”, quando a personagem expressa o impacto de ter assumido responsabilidades precocemente e de ter se sentido deixada de lado durante o conflito dos pais. O momento funciona como uma ruptura na dinâmica estabelecida: em vez de tentar solucionar a situação dos adultos, Ellian passa a comunicar o que a situação provocou nela.
O fim do casamento não significa o fim da família
A jornada até o Lago da Luz conduz a uma descoberta que contraria a resolução tradicional dos contos de fadas. Solon e Ellsmere não conseguem continuar juntos como casal. O objetivo de restaurar a família exatamente como ela era deixa de ser possível, e o filme precisa encontrar outra definição para um final satisfatório.
A solução apresentada separa casamento e parentalidade. Os dois deixam de ser marido e mulher, mas continuam sendo pai e mãe de Ellian. Um ano depois, vivem em castelos diferentes, enquanto continuam presentes na vida da filha e compartilham responsabilidades relacionadas a Lumbria. A estrutura familiar mudou, mas o vínculo parental permanece.
Essa escolha também evita associar automaticamente separação e abandono. O filme não apresenta a mudança como ausência de sofrimento para Ellian. Ela sente tristeza, raiva e saudade da configuração anterior da família. A narrativa reconhece, porém, que uma mudança pode ser dolorosa sem significar necessariamente a perda de todos os vínculos existentes.
O musical transforma sentimentos em narrativa
A música ocupa uma função importante na construção emocional do filme. Com composição de Alan Menken e letras de Glenn Slater, a produção apresenta nove canções originais que acompanham diferentes etapas da jornada de Ellian. Em vez de funcionarem apenas como interrupções da narrativa, os números musicais ajudam a explicitar sentimentos que a personagem tem dificuldade de organizar em conversas.
“The Way It Was Before” representa o desejo de recuperar o passado e retornar à configuração familiar conhecida. A canção está relacionada à dificuldade de aceitar que uma realidade anterior pode não ser recuperada. Já “What About Me?” desloca a atenção para a própria Ellian, depois de um período em que as necessidades dos pais e do reino dominaram a narrativa.
A direção de Vicky Jenson utiliza esse formato para combinar uma estrutura tradicional de fantasia com uma questão familiar contemporânea. A floresta, os monstros, os oráculos e o Lago da Luz funcionam como elementos de aventura, mas também acompanham mudanças internas dos personagens. Nesse sentido, a fantasia serve como uma linguagem para tratar de conflito, perda, comunicação e adaptação.
Um novo significado para o “felizes para sempre”
O principal movimento narrativo de Enfeitiçados está na substituição da restauração pela reorganização. Ellian começa acreditando que precisa devolver os pais à forma humana e, consequentemente, recuperar a família como ela existia antes. Ao longo da história, percebe que o casamento dos dois não pode ser salvo por sua intervenção e que essa responsabilidade pertence aos próprios adultos.
O desfecho estabelece uma nova configuração: Solon e Ellsmere estão separados, mas continuam exercendo a parentalidade e cooperando na criação da filha. A família deixa de ser definida exclusivamente pelo fato de seus integrantes viverem juntos ou pelo estado civil dos pais. O foco passa para a permanência de responsabilidades, vínculos e cuidado.
Com isso, o filme também questiona a ideia de que a pessoa mais competente de uma situação deve receber automaticamente mais responsabilidades. Ellian consegue administrar o reino e enfrentar a crise, mas sua trajetória aponta para outra necessidade: deixar de ocupar uma posição adulta dentro da família e voltar a ser filha. O verdadeiro rompimento do feitiço ocorre quando os personagens deixam de tentar recuperar exatamente o passado e passam a construir uma nova forma de convivência.
