Lançado em 2023 e exibido no Brasil a partir de maio de 2024, Crônicas do Irã (Ayeh Haye Zamini) é um filme iraniano dirigido e escrito por Ali Asgari e Alireza Khatami. Selecionada para a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, a obra reúne nove situações vividas por habitantes de Teerã diante de restrições culturais, religiosas e institucionais. Ao acompanhar questões comuns — como registrar um filho, procurar emprego ou renovar um documento —, o longa discute o alcance do controle sobre a vida privada.
Nove histórias constroem um retrato social
A estrutura do filme avança por diferentes fases da vida, do nascimento à velhice. Um pai tenta registrar o nome do filho; uma menina experimenta roupas para uma cerimônia escolar; uma adolescente é interrogada pela direção; uma mulher tenta recuperar o carro usado para trabalhar. Cada episódio parte de uma ação cotidiana que se transforma em confronto com uma regra ou autoridade.
As histórias não funcionam como narrativas isoladas. A repetição de situações de impedimento e justificativa cria uma unidade temática, mostrando como normas podem afetar identidade, trabalho, relações pessoais, expressão artística e autonomia. O resultado é um retrato fragmentado de uma cidade em que o acesso a escolhas básicas frequentemente depende de aprovação externa.
A autoridade fora de quadro representa um sistema
Em grande parte das cenas, apenas o personagem submetido ao questionamento aparece diante da câmera. A pessoa que exerce a autoridade permanece fora do enquadramento: o público escuta sua voz, mas não vê seu rosto. A escolha evita concentrar o conflito em um antagonista individual e associa o poder a uma estrutura que pode ser ocupada por diferentes pessoas.
Esse procedimento também altera a experiência do espectador. A câmera permanece com quem precisa explicar, negociar ou se defender, enquanto as perguntas se acumulam fora de campo. A ausência visual da autoridade reforça a assimetria entre quem pede um direito ou serviço e quem possui o poder de permitir, recusar ou impor condições.
Corpo, gênero e trabalho aparecem como áreas de fiscalização
As histórias de Selena, Aram, Sadaf e Faezeh mostram como roupas, aparência, circulação e oportunidades profissionais se tornam objetos de controle. Sadaf, por exemplo, enfrenta a apreensão do carro após uma acusação ligada ao uso do hijab, o que atinge simultaneamente sua mobilidade e sua fonte de renda. Já Faezeh encontra perguntas invasivas em uma entrevista de emprego.
O filme relaciona essas experiências à desigualdade nas relações de poder. Quando alguém controla documentos, vagas ou permissões, pode ultrapassar critérios objetivos e transformar uma necessidade cotidiana em situação de constrangimento. A abordagem evidencia a importância de ambientes institucionais e de trabalho que respeitem privacidade, dignidade e critérios transparentes.
A sátira expõe o funcionamento da censura
A sequência protagonizada por Ali, um cineasta em busca de autorização para filmar, aproxima o longa de sua própria condição de produção. O censor exige sucessivas alterações no roteiro, até que a obra em desenvolvimento corre o risco de perder seu sentido. A situação usa o humor para mostrar como a censura pode atuar não só pela proibição total, mas pela retirada gradual de elementos essenciais.
Esse tom satírico aparece em outros episódios, nos quais regras e exigências assumem proporções contraditórias. O riso não elimina o desconforto: ele revela o descompasso entre a justificativa burocrática e os efeitos concretos sobre os personagens. A comédia, nesse caso, funciona como instrumento de observação crítica sobre a normalização de práticas invasivas.
Relevância está na atenção às pequenas formas de poder
Crônicas do Irã mostra que o exercício da autoridade não se limita a decisões de grandes dirigentes. Ele também aparece em escolas, repartições, empresas, lojas e entrevistas, sempre que uma pessoa precisa convencer outra de que merece realizar algo comum. O filme questiona o que acontece quando procedimentos deixam de servir ao cidadão e passam a exigir sua submissão.
Ao tratar de autonomia, expressão e acesso ao trabalho, a obra destaca o valor de instituições capazes de aplicar regras com proporcionalidade e possibilidade de contestação. A simplicidade formal — uma pessoa enquadrada, uma voz fora de cena e uma conversa — permite que o longa examine como restrições repetidas podem moldar comportamentos, produzir autocensura e limitar a vida cotidiana.
