Lançada em 2023 no Prime Video, Cangaço Novo é uma série brasileira criada por Mariana Bardan e Eduardo Melo. A história acompanha Ubaldo Vaqueiro, bancário que vive em São Paulo e retorna ao sertão após descobrir uma herança, duas irmãs e um passado ligado a uma família de assaltantes. Em Cratará, cidade marcada por disputas políticas e econômicas, ele passa a confrontar o legado do pai e as próprias escolhas.
O sertão contemporâneo redefine o cangaço
A série não reconstitui o cangaço histórico, mas retoma seus símbolos em um cenário atual. Carros, fuzis, bancos, empresas, eleições e redes de influência substituem parte dos elementos de época, enquanto permanências como concentração de terra, violência, pobreza e poder de famílias locais moldam a narrativa.
O “novo” do título está nessa atualização. Cangaço Novo usa o faroeste contemporâneo para questionar como conflitos antigos podem assumir outras formas quando recursos, oportunidades e instituições permanecem distribuídos de modo desigual. Cratará funciona, assim, como um território onde grupos armados, empresários e políticos disputam autoridade.
Ubaldo conduz uma história sobre identidade e herança
Allan Souza Lima interpreta Ubaldo como um homem inicialmente afastado do passado familiar. Seu conhecimento sobre bancos e sistemas de segurança, adquirido em São Paulo, o aproxima dos assaltos realizados por Dinorah e outros integrantes do grupo. O que começa como uma necessidade financeira se transforma em pertencimento, reconhecimento e influência.
A trajetória do personagem sustenta a principal questão moral da série: até que ponto uma herança determina uma pessoa? Ubaldo encontra no sobrenome Vaqueiro uma fonte de poder, mas também de expectativas e violência. Ao assumir posição de liderança, ele deixa de apenas investigar a história do pai e passa a decidir qual legado pretende perpetuar.
Dinorah e Dilvânia ampliam as formas de liderança
Alice Carvalho vive Dinorah, personagem diretamente ligada à ação, ao planejamento de assaltos e à defesa da família. Sua presença desloca o imaginário tradicionalmente masculino associado ao cangaço, colocando uma mulher na linha de frente das decisões e confrontos. A atuação reforça a dimensão física e estratégica do poder no grupo.
Thainá Duarte interpreta Dilvânia, cuja influência se constrói por meio da fé, da palavra e do vínculo comunitário. As três trajetórias dos irmãos Vaqueiro apresentam formas distintas de mobilização: Ubaldo opera pela estratégia, Dinorah pela ação e Dilvânia pelo pertencimento. Essa combinação evita que a liderança seja representada apenas como domínio armado.
Segunda temporada transforma a resistência em disputa de governo
A segunda temporada, lançada em abril de 2026, amplia o conflito contra os Maleiros e introduz questões relacionadas ao futuro de Cratará. Ubaldo, Dinorah e Dilvânia enfrentam disputas por recursos, alianças, empresas e poder político, enquanto Gastão Maleiro e Paulino Leite representam forças rivais com influência sobre a cidade.
A mudança de escala altera também o debate da série. Assaltar um banco exige conhecimento e execução; administrar uma cidade demanda responsabilidades contínuas, como serviços, recursos e negociação. Ao colocar os Vaqueiros diante desse desafio, o roteiro distingue a capacidade de resistir da capacidade de construir alternativas para além da violência.
Relevância está na leitura regional de questões nacionais
Cangaço Novo relaciona sua trama a temas como desigualdade, concentração de poder, violência, acesso a recursos e fragilidade institucional. A disputa por água e serviços essenciais na segunda temporada reforça que controle econômico e controle político podem se cruzar, afetando diretamente a vida da população.
A produção também se destaca pelo uso do sertão, da música, da religiosidade e dos sotaques como elementos estruturais da narrativa, e não como decoração. Com duas temporadas disponíveis no Prime Video, a série demonstra como uma história situada em um território específico pode abordar questões amplas sobre pertencimento, justiça e o risco de reproduzir, em nome da resistência, os mesmos métodos que se pretende combater.
