Lançado em 2023, Sometimes I Think About Dying (Às Vezes Quero Sumir) é um daqueles filmes que falam baixo — mas dizem muito. Dirigido por Rachel Lambert, o longa acompanha a rotina quase invisível de uma mulher comum, cuja vida interior é muito mais intensa do que aparenta. No centro da narrativa está Fran, interpretada por Daisy Ridley, em uma atuação contida e profundamente humana.
A pergunta que sustenta a história não é sobre morte, mas sobre presença: como alguém aprende a viver quando sempre se sentiu à margem?
A rotina como território de silêncio
Fran trabalha em um escritório numa pequena cidade costeira. Cumpre horários, participa de reuniões, responde e-mails. Nada fora do comum. Mas por dentro, ela frequentemente imagina cenários em que desaparece ou morre.
Esses pensamentos não surgem como impulso autodestrutivo explícito, mas como reflexões existenciais — quase devaneios sobre a própria insignificância. O filme trata o tema com delicadeza, evitando dramatizações exageradas e apostando em uma abordagem contemplativa.
A sensação é de que Fran não quer necessariamente deixar de existir. Ela apenas não sabe como ocupar espaço.
Isolamento emocional versus conexão
A chegada de Robert, novo colega de trabalho, começa a deslocar essa dinâmica. Interpretado por Dave Merheje, ele se aproxima de Fran com naturalidade despretensiosa — convidando para um filme, puxando conversa, tentando criar laços.
Pequenos gestos passam a ter peso enorme. Um convite aceito. Uma piada compartilhada. Um silêncio menos desconfortável.
O conflito central do filme gira em torno dessa tensão: permanecer no isolamento emocional ou arriscar uma conexão que pode ser frágil, mas real.
O “sumir” como metáfora
O desejo de desaparecer funciona como símbolo de cansaço psicológico e distanciamento social. Fran observa o mundo à distância, como se estivesse sempre um passo atrás.
O ambiente do escritório — com seus diálogos protocolares e interações superficiais — reforça essa sensação de invisibilidade. Mas o filme sugere que, muitas vezes, a invisibilidade não é imposta apenas de fora; ela também nasce da dificuldade de se expor.
A narrativa toca em questões contemporâneas como solidão urbana, saúde emocional e a necessidade de ambientes de trabalho mais atentos às individualidades.
Minimalismo que amplifica emoções
A direção de Rachel Lambert aposta em planos estáticos, ritmo lento e silêncios prolongados. A cidade costeira, com sua atmosfera cinzenta e paisagens amplas, reflete o estado interno da protagonista.
O humor é sutil, quase tímido, mas essencial. Ele surge em situações constrangedoras e interações sociais desajeitadas, lembrando que vulnerabilidade também pode ser levemente cômica.
Não há grandes reviravoltas. A transformação é gradual, construída em microdecisões.
Aprender a existir
A essência de Às Vezes Quero Sumir está na ideia de que existir plenamente exige coragem — especialmente para quem sempre se sentiu deslocado.
O filme propõe uma reflexão madura: às vezes não queremos desaparecer. Queremos ser percebidos, compreendidos, reconhecidos.
