Lançado em 2012 e disponível na Netflix no Brasil, Não (No) é um drama político dirigido por Pablo Larraín e protagonizado por Gael García Bernal. O filme acompanha os bastidores da campanha contrária à continuidade de Augusto Pinochet no plebiscito chileno de 1988. Ao concentrar a narrativa no trabalho de um publicitário, a produção examina a relação entre persuasão, participação popular e memória da repressão.
A campanha organiza o recorte histórico
O plebiscito de 5 de outubro de 1988 consultou os eleitores sobre a permanência de Pinochet no poder por mais oito anos. A vitória do “não” abriu caminho para eleições presidenciais e parlamentares e para o encerramento do regime militar. Esse contexto sustenta o roteiro de Pedro Peirano, desenvolvido a partir da obra teatral El Plebiscito, de Antonio Skármeta.
René Saavedra, interpretado por García Bernal, é um personagem ficcional que concentra a perspectiva publicitária da campanha. Essa escolha oferece uma linha narrativa identificável, mas estabelece um limite: acompanhar sua contribuição não equivale a explicar integralmente a transição chilena. A mobilização política e social que tornou o resultado possível ultrapassa o trabalho mostrado dentro da agência.
O roteiro confronta denúncia e promessa
O principal conflito estratégico surge quando René propõe uma comunicação baseada em alegria, humor e expectativa de futuro. Parte da oposição considera necessário destacar a violência do regime e preservar o espaço das vítimas. O roteiro coloca essas posições em discussão, mostrando que escolher uma linguagem também significa decidir quais experiências terão maior visibilidade.
O uso de cores, música e imagens de bem-estar aproxima a campanha da publicidade comercial. Essa associação permite comunicar uma alternativa política, mas traz uma contradição: a promessa de transformação pode ser reduzida a uma experiência agradável e facilmente consumível. O interesse crítico do filme está nessa tensão, que impede tratar a estratégia apenas como demonstração de competência profissional.
Os personagens expõem diferentes compromissos
García Bernal constrói René entre a segurança no trabalho e a dificuldade de lidar com os riscos que a campanha introduz em sua vida. O personagem transita entre apresentações comerciais, relações familiares e disputas políticas. Essa circulação mantém em aberto a relação entre convicção, ambição profissional e envolvimento com a oposição.
Alfredo Castro interpreta Lucho Guzmán, ligado à campanha do “sim”, enquanto Antonia Zegers vive Verónica, que questiona a participação no processo organizado pelo regime. Lucho aproxima publicidade e manutenção do poder; Verónica recoloca a repressão no centro da discussão. As relações com ambos evitam que a perspectiva de René seja a única medida para avaliar os acontecimentos.
A imagem televisiva conecta ficção e arquivo
Larraín e o diretor de fotografia Sergio Armstrong utilizaram câmeras de vídeo U-matic, tecnologia associada à produção televisiva dos anos 1980. A definição reduzida, as cores e as marcas da imagem aproximam as cenas encenadas dos registros históricos incorporados ao filme. A escolha formal coloca a televisão no centro da experiência visual, além de seu papel dentro da trama.
Essa continuidade facilita a passagem entre dramatização e material de época, mas também torna menos evidente a fronteira entre ambos. O aspecto documental não transforma as cenas ficcionais em registro histórico. Narrativamente, a alternância entre reuniões, peças publicitárias e situações de intimidação combina a rotina de criação com a pressão política, fazendo da campanha um processo sujeito a riscos concretos.
A persuasão não encerra a questão democrática
A relevância cultural de Não está em permitir uma leitura crítica das mensagens políticas: quais sentimentos procuram despertar, quais fatos selecionam e quais experiências deixam em segundo plano. A campanha oferece um caso para examinar essas escolhas, sem estabelecer uma regra universal segundo a qual esperança sempre convence mais do que denúncia ou medo.
O filme também preserva uma ambiguidade sobre a continuidade da linguagem comercial na vida pública. A publicidade pode ampliar o alcance de uma causa, mas não substitui participação, direitos ou debate sobre o futuro proposto. Ao aproximar transformação política e técnicas de venda, Larraín deixa uma questão que ultrapassa o resultado eleitoral: o que acontece com a democracia quando sua apresentação passa a seguir a lógica de um produto?
