Em 1916, trabalhadores pobres deixam Chicago em busca de melhores condições de vida e encontram nos campos de trigo do Texas uma paisagem que parece saída de um paraíso. Em Cinzas no Paraíso (Days of Heaven), segundo longa de Terrence Malick, essa promessa de felicidade, porém, nasce de uma mentira. Com fotografia premiada de Néstor Almendros e trilha sonora de Ennio Morricone, o filme transforma um simples triângulo amoroso em uma reflexão sobre aquilo que o ser humano deseja, tenta possuir e, inevitavelmente, perde.
Um paraíso construído sobre uma mentira
Bill (Richard Gere), Abby (Brooke Adams) e a jovem Linda (Linda Manz) deixam Chicago para trabalhar na colheita de trigo no Texas. Para evitar julgamentos e complicações, Bill e Abby se apresentam como irmãos. A chegada à propriedade rural coloca os três diante de uma realidade completamente diferente daquela que conheciam: campos intermináveis, uma grande mansão, abundância e a possibilidade de uma vida mais confortável.
O proprietário das terras, conhecido apenas como o Fazendeiro (Sam Shepard), é rico, reservado e solitário. Ao perceber que ele se interessa por Abby e acreditar que o homem está gravemente doente, Bill cria um plano para escapar definitivamente da pobreza: Abby se casaria com o Fazendeiro e, após sua morte, os dois poderiam herdar sua fortuna. O problema é que sentimentos não obedecem a estratégias. Abby começa a desenvolver uma ligação verdadeira com o Fazendeiro, enquanto Bill passa a enfrentar ciúme e medo de perder aquilo que acreditava controlar.
Três personagens em busca de coisas diferentes
Bill representa a ambição e a sobrevivência, mas também a dificuldade de aceitar que outras pessoas possuem autonomia. Seu desejo por uma vida melhor nasce de circunstâncias concretas de pobreza e instabilidade, mas o caminho escolhido é baseado em manipulação. Ao tentar organizar o futuro de Abby e do Fazendeiro como se fossem peças de um plano, ele descobre que nenhuma estratégia consegue prever completamente o comportamento humano.
Abby, por sua vez, não permanece emocionalmente presa ao acordo inicial. Seus sentimentos mudam e ela passa a experimentar uma relação que não corresponde ao projeto de Bill. Já o Fazendeiro possui exatamente aquilo que Bill deseja — dinheiro, terra e segurança —, mas carece de companhia e afeto. Essa inversão é uma das grandes ironias da narrativa: o homem pobre quer a riqueza do homem rico, enquanto o homem rico deseja o amor que o outro acredita possuir.
Trigo, mansão e fogo: símbolos de um paraíso passageiro
Os campos de trigo são algumas das imagens mais marcantes de Cinzas no Paraíso. Dourados e aparentemente infinitos, representam abundância, fertilidade e prosperidade. Mas existe uma contradição: os trabalhadores responsáveis por produzir aquela riqueza continuam vivendo com pouca segurança. A paisagem, portanto, também revela a distância entre quem possui a terra e quem depende do próprio trabalho para sobreviver.
A mansão do Fazendeiro segue o mesmo caminho simbólico. Inicialmente, parece representar segurança e conforto; depois, passa a concentrar segredos, ciúmes e desconfiança. Quando os gafanhotos chegam e, posteriormente, o fogo transforma a paisagem, aquilo que parecia permanente desaparece rapidamente. A destruição externa funciona como extensão dos conflitos que já consumiam os personagens por dentro.
A natureza como protagonista silenciosa
A fotografia de Néstor Almendros é fundamental para a identidade do filme. O uso de luz natural, especialmente nos momentos próximos ao amanhecer e ao entardecer, cria imagens que parecem existir por poucos instantes. O trabalho rendeu a Almendros o Oscar de Melhor Fotografia, enquanto o BFI destaca a força visual da produção e suas aproximações com referências pictóricas como Andrew Wyeth e Edward Hopper.
Essa beleza também estabelece uma relação importante entre humanidade e natureza. Os personagens acreditam que seus problemas são gigantescos, mas o mundo ao redor continua funcionando independentemente deles. O trigo cresce, os pássaros voam, os insetos avançam e o fogo se espalha. A natureza não se submete aos desejos humanos, tornando-se uma espécie de protagonista silenciosa diante da qual riqueza, amor e poder revelam seus limites.
Linda e o cinema que prefere sugerir
A história é narrada por Linda, uma criança que observa os acontecimentos sem possuir todas as informações necessárias para compreendê-los. Sua perspectiva fragmentada faz com que o público receba a história como uma lembrança: cenas, sentimentos e acontecimentos aparecem sem necessariamente oferecer explicações completas sobre aquilo que os adultos estão fazendo ou pensando.
Essa escolha resume a linguagem de Terrence Malick. Diálogos econômicos, voz em off, silêncio, paisagens monumentais, luz natural e montagem associativa fazem com que Cinzas no Paraíso seja menos interessado em explicar seus personagens do que em fazê-los existir diante da câmera. A Criterion destaca justamente a relação constante entre natureza e cultura, enquanto o BFI chama atenção para a distância entre aquilo que vemos e aquilo que efetivamente sabemos sobre os personagens.
Quando a felicidade não pode ser possuída
Cinzas no Paraíso recebeu quatro indicações ao Oscar — Fotografia, Figurino, Trilha Sonora Original e Som — e venceu na categoria de Fotografia. A trilha de Ennio Morricone também foi indicada e contribui para a atmosfera de nostalgia, beleza e perda que acompanha a narrativa. O filme ainda aparece na votação de críticos da Sight and Sound de 2022, na posição 152 da lista divulgada pelo BFI.
Mais do que um romance, a obra fala sobre pobreza, trabalho, desigualdade, riqueza, amor, ciúme, mentira, natureza e impermanência. Bill acredita que dinheiro poderá solucionar sua vida; o Fazendeiro acredita que Abby poderá preencher sua solidão; ambos descobrem que segurança material e felicidade não são sinônimos. No fim, o paraíso não desaparece porque a paisagem deixa de ser bela, mas porque nenhuma paisagem consegue impedir que as pessoas mudem. Talvez o maior erro não seja perder o paraíso, mas acreditar que, depois de encontrá-lo, podemos possuí-lo para sempre.
