Entre perseguições, humor afiado e conflitos familiares, Shaft (2019) atualiza uma das franquias mais emblemáticas do cinema policial. Dirigido por Tim Story, o longa reúne três gerações do mesmo nome em uma história que vai além da investigação criminal e mergulha em questões de identidade, pertencimento e herança.
Disponível na Netflix em diferentes regiões, o filme coloca lado a lado Samuel L. Jackson, Jessie T. Usher e Richard Roundtree, conectando passado, presente e futuro de um dos personagens mais icônicos da cultura pop.
Um crime que aproxima pai e filho
A trama acompanha John “JJ” Shaft Jr., analista de cibersegurança do FBI, que decide investigar a morte suspeita de um amigo. Sem experiência nas ruas, ele recorre ao pai distante, o detetive John Shaft II, conhecido por seus métodos diretos e nada convencionais.
O encontro entre os dois rapidamente revela mais do que diferenças profissionais. Existe um abismo geracional que se reflete na forma como cada um enxerga o mundo, o perigo e até mesmo o que significa ser forte.
A investigação, nesse contexto, funciona como ponto de partida para algo maior: a tentativa de reconstruir uma relação marcada por ausência, silêncio e escolhas do passado.
Choque de gerações e novas formas de masculinidade
O coração de Shaft está no contraste entre dois modelos de comportamento. De um lado, o pai durão, impulsivo e acostumado a resolver tudo na base da ação. Do outro, o filho analítico, cuidadoso e mais conectado a um mundo mediado pela tecnologia.
Esse conflito é explorado com humor, mas também levanta uma discussão relevante: o que significa ser homem em tempos diferentes? O filme brinca com estereótipos, mas também abre espaço para questioná-los.
JJ não quer ser uma cópia do pai. Ele busca construir sua própria identidade, equilibrando inteligência, sensibilidade e coragem — uma abordagem que dialoga com mudanças mais amplas na forma como masculinidade vem sendo debatida.
O peso de carregar o nome Shaft
Mais do que uma herança familiar, o sobrenome Shaft funciona como símbolo de reputação e expectativa. Para JJ, carregar esse nome é tanto um privilégio quanto uma pressão constante.
A presença de Richard Roundtree, o Shaft original, reforça essa ideia de continuidade. Ele representa a origem de um legado que atravessa décadas e molda a identidade dos personagens.
O filme sugere que herdar um nome não significa repetir o passado. Pelo contrário, implica entender o que deve ser mantido e o que precisa ser transformado — uma reflexão que se estende para além da ficção.
Mulheres que equilibram o jogo
Embora centrado na relação entre pai e filho, Shaft também dá espaço para personagens femininas que influenciam diretamente a narrativa. Maya Babanikos, interpretada por Regina Hall, representa o elo emocional e a estabilidade que faltaram na dinâmica familiar.
Já Sasha Arias, vivida por Alexandra Shipp, conecta o protagonista ao seu passado e ao seu lado mais afetivo, funcionando como contraponto ao universo mais duro da investigação.
Essas personagens ajudam a equilibrar a história, trazendo perspectivas que desafiam comportamentos impulsivos e ampliam a discussão sobre relações e responsabilidade.
Entre o instinto e a tecnologia
Outro ponto forte do filme está no contraste entre métodos. Enquanto Shaft pai confia na experiência das ruas, JJ aposta em dados, análise e tecnologia para resolver o caso.
Essa dualidade reflete transformações no próprio conceito de segurança e investigação, onde o digital passa a ter papel tão importante quanto a ação física.
Ao unir esses dois mundos, o filme sugere que o equilíbrio entre tradição e inovação pode ser mais eficaz do que a negação de um ou outro — uma leitura que dialoga com mudanças em diferentes áreas da sociedade contemporânea.
Recepção e relevância
Shaft teve uma recepção crítica dividida, especialmente por apostar em um humor baseado no choque geracional e por suavizar o tom mais sério das versões anteriores.
Ainda assim, o longa cumpre um papel importante ao atualizar um ícone da cultura pop negra, mantendo sua essência enquanto tenta dialogar com um novo público.
A força do filme está justamente nessa transição: respeitar o passado sem deixar de abrir espaço para novas narrativas, novas vozes e novas formas de representar identidade e família.
