Em Aftersun (2022), Charlotte Wells transforma lembranças em poesia. O filme acompanha um jovem pai e sua filha em uma viagem comum de férias, mas por trás das imagens suaves e da luz dourada do verão, pulsa uma melancolia que só o tempo é capaz de revelar
O brilho que o tempo não apaga
Calum (Paul Mescal) e Sophie (Frankie Corio) estão em um resort na Turquia. Ele é um pai jovem, atencioso, mas silenciosamente quebrado; ela, uma menina curiosa e cheia de energia. Juntos, compartilham dias de sol, mergulhos, risadas e brincadeiras filmadas em fitas VHS. À primeira vista, são férias comuns — até que o olhar atento percebe o que não é dito: uma tristeza constante por trás dos gestos ternos.
Charlotte Wells constrói essa relação com a delicadeza de quem observa uma fotografia antiga. Cada cena é atravessada por uma sensação de distância — como se já estivéssemos vendo um passado que dói lembrar. O tempo, nesse filme, não é uma linha; é um círculo. O presente se mistura com o passado e o futuro com o que já foi esquecido. É assim que a diretora captura a natureza das lembranças: fragmentada, viva e cheia de silêncios.
O silêncio como linguagem
O grande feito de Aftersun é transformar o não-dito em narrativa. A depressão de Calum nunca é mostrada de forma explícita, mas se insinua em gestos simples: o mergulho solitário à noite, o olhar distante após um sorriso, o corpo que dança tentando espantar a dor.
Charlotte Wells — em sua estreia como diretora — não busca dramatizar o sofrimento, e sim compreendê-lo. O resultado é um retrato profundo sobre saúde mental e vulnerabilidade emocional masculina, tema ainda pouco explorado com tamanha sensibilidade no cinema contemporâneo.
A ausência de explicações é o que dá força ao filme. O público, assim como Sophie, precisa preencher as lacunas. A câmera de Gregory Oke, emoldurada no formato 4:3, captura o mundo como uma lembrança emoldurada — íntima, mas distante. As cores quentes e o grão do filme analógico reforçam essa sensação de memória tátil, quase palpável.
Memória e amadurecimento
Anos depois, Sophie adulta revisita essas fitas e lembranças. Ela tenta reconstruir, com o olhar da maturidade, o que realmente aconteceu naquele verão. O que era leve se torna trágico em retrospecto. A diretora cria, assim, um diálogo entre o passado e o presente — entre o que vivemos e o que, sem perceber, deixamos escapar.
Esse confronto com o tempo é também um aprendizado sobre empatia. A infância, vista de longe, revela o quanto não compreendemos nossos pais até nos tornarmos adultos. Aftersun transforma o amadurecimento em uma forma de perdão, uma tentativa de enxergar com amor o que antes parecia apenas mistério.
A maturidade de Sophie é o espelho que ilumina a dor de Calum — e também o símbolo de um afeto que sobrevive, mesmo depois da ausência.
A estética da lembrança
Visualmente, Aftersun é um poema. As imagens parecem respirar — cada frame é construído como se fosse uma lembrança prestes a desaparecer. A trilha sonora mistura sons ambientes, vozes distantes e canções nostálgicas como Under Pressure, do Queen com David Bowie, e Losing My Religion, do R.E.M. — faixas que funcionam como cápsulas do tempo emocional.
O uso das fitas VHS dentro da narrativa reforça o tema da memória reconstruída. O olhar da câmera caseira de Sophie é uma forma de eternizar o pai, mesmo sem entender sua dor. Ao revisitar essas imagens, ela tenta reconstituir um afeto que o tempo dissolveu, mas nunca apagou completamente.
O filme convida o espectador a sentir, não a entender. É cinema como lembrança — fluido, afetivo e impreciso como a própria mente humana.
A dor que se transforma em luz
O impacto de Aftersun vem do reconhecimento: todos já tivemos um “Calum” em nossas vidas — alguém que sorriu para esconder o peso do mundo. Wells não fala sobre tragédia, mas sobre a beleza e a finitude do amor. O sol do título não é apenas o que se põe, mas o que permanece — a luminosidade interna das lembranças que resistem à passagem do tempo.
O filme propõe uma reflexão sobre saúde emocional, escuta e empatia. A forma como lidamos com o sofrimento alheio, com a paternidade e com a memória se torna um espelho de uma sociedade que ainda engatinha na compreensão da mente e das emoções.
A luz que resta após o pôr do sol é o legado invisível que deixamos nas pessoas que amamos.
O sol depois do sol
Com uma direção delicada e uma atuação devastadora de Paul Mescal, Aftersun se estabelece como um dos filmes mais emocionais e sutis da década. Charlotte Wells transforma a dor em poesia e o silêncio em linguagem. É uma história sobre a herança afetiva, sobre o que não dissemos e sobre o que continua ecoando, mesmo depois da partida.
Sophie não tenta mais entender o pai — ela o acolhe dentro da memória. E talvez esse seja o gesto mais humano de todos: aceitar que o amor não precisa de respostas, apenas de espaço para continuar brilhando.
