Em um Brasil atravessado por incertezas políticas, econômicas e sociais, Marte Um (2022), dirigido por Gabriel Martins, surge como um respiro poético e necessário. Com delicadeza, o filme retrata a rotina da família Martins, que, apesar das dificuldades da vida na periferia de Contagem, Minas Gerais, segue acreditando que sonhar é, sim, um ato de resistência.
Sonhos que rompem a gravidade social
No centro da narrativa está Deivinho (Cícero Lucas), um garoto que nutre o sonho de ser astrofísico e, quem sabe, um dia colonizar Marte. Seu desejo, no entanto, esbarra nas expectativas do pai, Wellington (Carlos Francisco), que projeta no filho a esperança de um futuro mais seguro através do futebol. A tensão entre sonho e realidade, aspiração e sobrevivência, percorre toda a trama de maneira sutil, porém contundente.
Esse embate simbólico revela algo maior: a luta cotidiana das famílias periféricas para não sucumbirem às imposições de uma sociedade que, frequentemente, tenta limitar até mesmo a capacidade de sonhar.
Dinâmica familiar: afetos, conflitos e pertencimento
A força de Marte Um está, sobretudo, na construção dos vínculos familiares. Eunice (Camilla Damião), a filha mais velha, enfrenta o desafio de se afirmar afetivamente ao assumir um relacionamento com outra mulher. Sua trajetória ecoa a busca por autonomia e aceitação em um ambiente onde a tradição, por vezes, se sobrepõe à liberdade individual.
Tércia (Rejane Faria), a mãe, carrega suas próprias dores após um incidente traumático que ela interpreta como uma espécie de maldição. Sua narrativa, permeada por humor, amor e resiliência, reforça a potência das mulheres negras na sustentação emocional dos lares e das comunidades.
Estética do cotidiano, narrativa da esperança
Gabriel Martins opta por uma linguagem visual que valoriza o real. A câmera passeia por becos, casas simples, linhas de ônibus e praças de Contagem, compondo uma cartografia afetiva do espaço urbano e da vida periférica.
A trilha sonora, assinada por Daniel Simitan, costura cada cena com delicadeza, acentuando tanto os momentos de tensão quanto os de ternura. Sem recorrer a clichês de miserabilidade ou heroísmo, o filme encontra beleza na rotina, dignidade nos desafios e poesia no ordinário.
Quando sonhar é, também, resistir
Marte Um é, antes de tudo, uma declaração de esperança. Ao acompanhar uma família que enfrenta os desafios estruturais do Brasil — desigualdade, preconceito, precarização —, o filme reafirma que sonhar não é um luxo reservado a poucos, mas um direito.
A presença de uma personagem LGBTQIAPN+, a valorização da negritude e o incentivo à busca por caminhos alternativos, como o desejo de Deivinho pela ciência, transformam a obra em um convite para refletirmos sobre os espaços de representação, pertencimento e possibilidades dentro de uma sociedade profundamente marcada por exclusões.
Reflexões que transcendem a tela
Mais do que uma ficção sobre uma família específica, Marte Um espelha uma realidade partilhada por milhões de brasileiros e brasileiras. E faz isso sem abrir mão da ternura. Em tempos em que o discurso da desesperança muitas vezes ganha volume, o filme lembra que resistir, amar e sonhar seguem sendo formas legítimas — e urgentes — de existir.
