Entre orçamentos apertados e velhas tradições acadêmicas, a primeira mulher a liderar o Departamento de Letras de Pembroke University descobre que comandar também é saber escutar e dividir o peso da mudança.
Uma nova liderança sob pressão
Em The Chair, série original da Netflix lançada em 2021, Sandra Oh vive Ji-Yoon Kim, a primeira mulher e a primeira pessoa não branca a assumir a chefia do Departamento de Inglês de uma tradicional universidade americana. Logo nos primeiros episódios, fica claro que a nomeação, embora simbólica, está longe de representar uma mudança consolidada. Ji-Yoon herda um setor em crise: poucos alunos, professores ultrapassados, cortes de verba e muita resistência a qualquer proposta de renovação. Criada por Amanda Peet e Annie Julia Wyman, a série mescla humor ácido e crítica social, mostrando como instituições centenárias resistem às transformações que o tempo exige. Em meio a conselhos universitários tensos, protestos estudantis e batalhas curriculares, Ji-Yoon tenta manter a dignidade e o afeto, enquanto descobre que liderar é mais sobre escutar do que sobre impor.
Diversidade como campo de batalha
Um dos principais pontos de tensão da série é a tentativa de incluir novas vozes no corpo docente e nos conteúdos das disciplinas. A contratação da jovem e brilhante professora Yaz McKay, mulher negra e carismática, coloca em xeque os métodos e os temas tradicionalmente valorizados. O embate entre o cânone literário e as novas perspectivas de ensino serve como metáfora para uma universidade que precisa urgentemente se atualizar.
Sala de aula e bastidores
Com direção de fotografia que privilegia o estilo realista e uma ambientação intimista dentro de salas, corredores e gabinetes, The Chair aposta em planos estáticos e enquadramentos fechados para captar as tensões sutis dos bastidores universitários. A linguagem visual traduz bem o contraste entre a formalidade das instituições e o caos cotidiano que envolve administrar pessoas, egos, carreiras e expectativas.
Em apenas seis episódios, cada com cerca de trinta minutos, a série consegue equilibrar cenas engraçadas e momentos de grande densidade emocional. Um dos pontos altos é a audiência no conselho universitário, onde questões financeiras, éticas e afetivas se entrelaçam, revelando o peso das escolhas de Ji-Yoon como professora e gestora e também como mulher, mãe e amiga.
Entre a vida acadêmica e a pessoal
Ao lado dos desafios institucionais, Ji-Yoon vive as complexidades de criar sozinha uma filha pequena e manter um vínculo afetivo ambíguo com o professor Bill Dobson, carismático e problemático. O cansaço, a culpa, os desencontros e a dificuldade de conciliar tudo fazem dela uma personagem profundamente humana e talvez uma das representações mais honestas da mulher profissional contemporânea na televisão.
Sandra Oh brilha no papel, conferindo carisma, sensibilidade e intensidade a cada cena. Não à toa, foi indicada ao Critics’ Choice TV Award pela sua atuação.
Reflexo do mundo real
Com 86 por cento de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes e nota 7,3 no IMDb, The Chair foi elogiada por sua capacidade de retratar, com leveza e profundidade, os impasses de um ambiente elitizado e, muitas vezes, engessado. A série também dialoga diretamente com pautas contemporâneas relacionadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), como educação de qualidade, igualdade de gênero, inclusão e instituições eficazes. Mais do que uma sátira da vida universitária, The Chair propõe uma reflexão sobre o que significa ensinar, representar e transformar. Ela mostra que, por trás de cada cargo, há uma pessoa tentando fazer o melhor possível, mesmo quando ninguém parece disposto a colaborar.
A revolução que começa em silêncio
Disponível na Netflix, a série nos lembra que nem toda revolução precisa ser grandiosa. Às vezes, começa no gesto de contratar alguém novo, de ouvir um aluno, de rever uma leitura obrigatória. E que, nas universidades e fora delas, mudar o mundo exige coragem e também gentileza.
