Entre corredores escuros, cadeiras vazias e vozes cansadas, Segunda Chamada mergulha em uma realidade invisibilizada: a Educação de Jovens e Adultos (EJA) na periferia de São Paulo. A série, exibida entre 2019 e 2021, acompanha o cotidiano de uma escola pública noturna onde professores e alunos dividem um mesmo fardo de sobreviver em um sistema que os esqueceu. Criada por Carla Faour, Julia Spadaccini e Jô Bilac, com direção artística de Joana Jabace e produção da O2 Filmes em parceria com a Globo e o Globoplay, a obra transforma a sala de aula em palco de conflitos sociais, afetivos e existenciais.
O ponto de partida é direto e simbólico: e se, depois de uma vida inteira de obstáculos, o próximo ano letivo fosse a única chance de recomeçar?
Educação como direito, não como favor
A série se estrutura em torno da professora Lúcia, vivida por uma Debora Bloch em performance visceral, que retorna ao magistério após um trauma pessoal. Ela se junta a um corpo docente igualmente fragilizado, liderado pelo diretor Jaci, enquanto tenta manter viva a chama de ensinar em uma instituição desassistida. Os desafios vão da falta de material ao risco constante de fechamento da escola, passando por salas vazias e alunos ausentes por necessidade e não por escolha.
Ao retratar a EJA com humanidade e realismo, Segunda Chamada escancara o descaso crônico com a educação pública. A precarização das estruturas, os baixos salários e a invisibilidade do turno noturno contrastam com a potência das histórias individuais que habitam aquele espaço. Cada aluno é um universo interrompido tentando se reescrever entre as linhas do caderno.
Personagens plurais e conflitos urgentes
Mais do que denunciar a desigualdade estrutural, a série aposta na pluralidade de seus personagens. Estão lá Solange, mãe adolescente tentando retomar os estudos; Natalia, uma travesti que busca respeito e espaço; Jurema, uma mulher negra madura enfrentando o peso da solidão; além de refugiados, ex-presidiários, indígenas e alunos em situação de rua. Ao colocá-los lado a lado, a narrativa reafirma que a educação é um direito universal, ainda que, na prática, continue sendo seletiva e excludente.
O mérito está na forma como esses conflitos são tratados. Xenofobia, violência doméstica, alcoolismo, abandono familiar e bullying aparecem com crueza, mas sem espetacularização. A direção aposta em câmeras próximas e planos íntimos, criando uma estética de urgência e tensão que acompanha os personagens dentro e fora da sala. A trilha e a montagem contribuem para essa imersão, equilibrando dor e dignidade.
O olhar feminino como força narrativa
Com predominância de mulheres na criação e direção, Segunda Chamada oferece uma abordagem sensível e política da docência. A presença de vozes femininas se reflete na escuta atenta às subjetividades, nas relações afetivas entre os personagens e na delicadeza com que os traumas são expostos. Não à toa, a série foi premiada pela APCA e amplamente elogiada por sua autenticidade.
O feminino aqui não é tratado como categoria estética, mas como perspectiva ética. É a partir dessa lente que a série constrói a ideia de educação como cuidado, resistência e ferramenta de transformação.
Temporadas que refletem o colapso e a luta
A primeira temporada, exibida na TV Globo, apresenta os personagens e estabelece o ambiente da escola como espaço de refúgio e conflito. A cerimônia de formatura, marcada por emoção, fecha esse primeiro ciclo com esperança ainda que Lúcia se despeça do cargo. Já a segunda temporada, lançada no Globoplay, mergulha em um cenário ainda mais desolador: queda nas matrículas, ameaças de encerramento e novos alunos em situação de rua, evidenciando o agravamento da crise educacional no Brasil.
Apesar do tom mais sombrio, a narrativa se mantém firme no compromisso com a dignidade de seus personagens. Há tensão, sim, mas também há luta. Mesmo diante da escassez, os professores seguem em sala. Mesmo sem perspectiva, os alunos tentam permanecer.
Realidade espelhada e potência crítica
Inspirada na peça Conselho de Classe, de Jô Bilac, Segunda Chamada surgiu em um momento de debates intensos sobre o desmonte da educação pública no país. Sua relevância vai além do entretenimento. A série atua como catalisador de discussões sobre direitos sociais, desigualdade, representatividade e cidadania. Ao dar rosto e voz aos excluídos, amplia a visibilidade da EJA e denuncia a negligência histórica com essa modalidade de ensino.
Além disso, a obra dialoga diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, sobretudo os que tratam de educação de qualidade, redução das desigualdades e fortalecimento das instituições. Aqui, ensinar é um ato político. Estudar, um gesto de resistência.
A urgência de uma segunda chance
Mais que uma produção dramática, Segunda Chamada é um manifesto. Ao transformar a escola em campo de batalha simbólico e afetivo, a série convida o espectador a enxergar além das estatísticas: a educação como espaço de luta, de escuta e de transformação. O que está em jogo não é apenas o diploma, mas o direito de existir com dignidade.
No Brasil de muros altos e políticas seletivas, a obra é um lembrete necessário de que nunca é tarde para recomeçar e de que há milhares tentando, noite após noite, uma segunda chance.
