Lançado em 2025, o thriller criminal norte-americano Protocolo de Fuga (Exit Protocol) acompanha Sam Hayden (Scott Martin), um assassino especializado em eliminar profissionais que tentam deixar uma organização clandestina. Dirigido por Shane Dax Taylor e escrito por Chad Law, o filme coloca o personagem diante de uma contradição quando Charles Managold (Dolph Lundgren), antigo alvo, decide abandonar a vida criminosa para construir uma família. A situação leva Sam a questionar as regras que orientaram sua própria existência e a buscar uma saída de um sistema que não admite deserções.
Uma premissa baseada na inversão de papéis
O principal elemento narrativo de Protocolo de Fuga está na função desempenhada por Sam. Ele não é simplesmente um assassino contratado para eliminar adversários, mas alguém cuja especialidade é impedir que outros profissionais abandonem a organização. A aposentadoria, nesse universo, não é uma escolha possível: quem deseja sair passa a ser tratado como uma ameaça que precisa ser eliminada.
A chegada de Charles introduz uma ruptura nessa lógica. Encarregado de matar Danique Kellar (Charlotte Kirk), testemunha de um assassinato, Charles decide poupá-la depois de desenvolver um relacionamento com ela. A gravidez do casal acrescenta ao personagem uma perspectiva de futuro que entra em conflito com a identidade construída durante anos.
Quando Sam recebe a missão de eliminá-lo, Charles tem a oportunidade de repetir a lógica do sistema e matar o homem que veio atrás dele. Em vez disso, decide poupá-lo. Esse momento altera a relação entre os dois e permite que Sam passe gradualmente de executor a questionador das próprias regras.
Sam e Charles como espelhos de uma mesma transformação
Scott Martin constrói Sam a partir de uma personalidade marcada pelo isolamento. Para o personagem, vínculos representam vulnerabilidades e relações pessoais podem ser utilizadas contra quem as possui. A ausência de laços, portanto, funciona inicialmente como uma estratégia de sobrevivência em um ambiente no qual confiança pode resultar em consequências fatais.
Charles representa o caminho contrário. Seu contato com Danique e a expectativa do nascimento do filho fazem com que ele deixe de pensar exclusivamente na próxima missão e passe a considerar uma vida posterior ao crime. O personagem não deseja apenas abandonar uma atividade; ele começa a construir uma identidade alternativa baseada em família e responsabilidade.
A relação entre os dois funciona como um espelho narrativo. Charles já tomou a decisão que Sam ainda precisa compreender. Enquanto um deles abandona a carreira para preservar um vínculo, o outro passou anos sacrificando vínculos para preservar a carreira. A aproximação entre os personagens permite que Sam enxergue uma possibilidade que havia excluído de sua própria vida.
A organização como antagonista
Embora personagens como Augustus Shadrin (J.B. Yowell), Isaac Florentine (Michael Jai White), Wicked (Stephanie Beran) e Bashkim (Christian Cardona) desempenhem funções distintas na perseguição, o principal antagonista do filme é a própria estrutura que os reúne. A organização opera a partir de uma regra fundamental: entrar é possível, mas sair significa tornar-se alvo.
Augustus representa o nível hierárquico responsável por preservar essa lógica. Ele distribui ordens enquanto outros executam as consequências, criando uma separação entre decisão e ação. Sam, Isaac, Wicked e Bashkim são tratados essencialmente como instrumentos para alcançar resultados, o que também explica por que a organização consegue substituir rapidamente um profissional quando ele deixa de cumprir sua função.
A estrutura apresenta uma diferença importante entre permanência e lealdade. Permanecer porque abandonar o grupo resulta em punição não significa necessariamente escolher continuar nele. A história utiliza essa situação extrema para questionar sistemas baseados em coerção e a ideia de que obediência pode ser confundida com pertencimento.
Nona, culpa e reconstrução da identidade
Nona Messenger (Lina Maya) ocupa uma posição diferente na trajetória de Sam. Durante boa parte da história, ele acredita que matou a mulher por quem se apaixonou e carrega essa lembrança como parte de sua culpa. A relação funciona como evidência de que a carreira não afetou apenas as ações profissionais do personagem, mas também sua percepção sobre quem ele é.
A revelação de que Nona está viva modifica a compreensão que Sam possui sobre o próprio passado. A organização havia participado da manipulação das circunstâncias que moldaram sua trajetória, fazendo com que o personagem carregasse durante anos uma interpretação equivocada de um acontecimento decisivo. A descoberta amplia o conflito entre Sam e o sistema, que passa a ser também uma disputa pela própria narrativa pessoal.
Nesse sentido, a fuga não depende somente de abandonar fisicamente a organização. Sam precisa abandonar a identidade que construiu ao redor da profissão, da culpa e do isolamento. A transformação é gradual: executor, observador, questionador, aliado e, finalmente, alguém disposto a escolher o próprio caminho.
A ação como veículo para discutir liberdade e pertencimento
Shane Dax Taylor conduz Protocolo de Fuga dentro de uma linguagem de ação independente, com perseguições, tiroteios, confrontos físicos e uma estrutura narrativa direta. O filme privilegia a movimentação dos personagens e a progressão do conflito em detrimento de uma construção mais extensa do universo criminoso ou de seus personagens secundários.
A simplicidade da execução limita parte do potencial da premissa. A ideia de um profissional especializado em eliminar desertores que decide abandonar o próprio sistema oferece possibilidades para discutir identidade, autonomia e coerção, mas o roteiro frequentemente retorna às convenções do thriller de ação. Ainda assim, a relação entre Sam e Charles fornece ao filme um eixo dramático que vai além da perseguição.
No encerramento, a experiência de Sam produz uma inversão da filosofia que sustentou sua vida. Ele acreditava que vínculos eram exclusivamente vulnerabilidades e que o isolamento garantiria sua sobrevivência. A aliança com Charles demonstra o contrário: relações também podem formar redes de proteção e cooperação. O chamado “protocolo de fuga” deixa de significar eliminar quem deseja sair e passa a representar a possibilidade de romper com uma identidade imposta e construir uma vida baseada em escolha.
